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Após um mês de crime da Vale em MG, manifestantes cobram justiça e cuidados com o Rio São Francisco

Após um mês de crime da Vale em MG, manifestantes cobram justiça e cuidados com o Rio São Francisco

Seguindo uma mobilização nacional, trechos das principais ruas do centro da cidade de Juazeiro (BA) deram passagem na manhã desta segunda (25) a um Ato Político organizado por movimentos populares e instituições de apoio da região. Quem caminhava na via, segurava faixas, microfone, distribuíam panfletos ou quem simplesmente parou suas atividades pra prestar atenção na movimentação na rua, expressava sua solidariedade com as vítimas do crime da Vale ocorrido a exato um mês em Brumadinho (MG) e clamava pela vida do Rio São Francisco.

O Ato teve concentração na Praça Dedé Caxias, reunindo participantes da área urbana e rural de Juazeiro e de outros municípios do Sertão do São Francisco, na Bahia, bem como de Pernambuco. Em caminhada, as/os manifestantes seguiram até a Orla Nova, onde aconteceu uma celebração inter-religiosa guiada pela representante dos povos de terreiro, Ioná Pereira, e pelo bispo da Diocese de Juazeiro, Dom Beto Breis.

Pescadores/as, agricultores/as, atingidos pela Hidrelétrica de Sobradinho e Itaparica, lideranças comunitárias, artistas, estudantes e religiosos/as, fizeram pronunciamentos, cantaram ou ecoaram gritos de ordem durante o trajeto, despertando a população para a gravidade do problema e cobrando justiça. O trabalhador do comércio de Juazeiro que assistia a manifestação, Cassiano Souza, externou sua preocupação com as consequências do crime e disse que não só a população “mas os governos também tem que se mobilizar”.

A situação de tristeza e o medo de que as águas doces que abastece a região sejam prejudicadas foram os motivos que levaram ao Ato a moradora da comunidade de Ferrete, em Curaçá, Sônia Medrado. Se a água do São Francisco chegar a ficar imprópria para consumo “nós vamos morrer tudo, porque não tem de onde tirar água mineral aqui”, adianta com preocupação Dona Sônia.

Impactos e Ameaças regionais

Curaçá é um dos municípios da região banhados pelo Rio São Francisco e que já conta com mais de 80% do seu território mapeado para exploração mineral. Além disso, de acordo com informações da Prefeitura, em 2016 mais de 10 empresas já desenvolviam pesquisa ou exploração em uma média de 20 localidades. Dom Beto citou os prejuízos que a mineradora Galvani tem causado na comunidade de Angico dos Dias, em Campo Alegre de Lourdes, onde já se constata contaminação de lagoa, poluição do ar e uma série de outros direitos tirados da população local.

Rizoneide Gomes, da Comissão Pastoral dos/das Pescadores/as – CPP, lembra que o Rio São Francisco já vem sendo contaminado diariamente com o alto índice de agrotóxico, esgotos e outros empreendimentos, inclusive a mineração. “A gente vê essa situação com muita preocupação porque infelizmente os órgãos fiscalizadores não tem uma ação efetiva pra fazer as vistorias necessárias”, lamenta Rizoneide.

A respeito do risco de contaminação da Calha do Velho Chico devido ao crime da Vale, a promotora de Justiça do Ministério Público da Bahia, representante do Núcleo do São Francisco – Nusf, Luciana Khoury, sinaliza que há falas técnicas de que isso não irá acontecer, pois a pluma de rejeito seria retida na Hidrelétrica de Retiro de Baixo, no estado mineiro. Entretanto, ela destaca que neste caso há contenção da pluma, popularmente chamada de lama, porém a água segue com metais pesados, o que pode impactar a fauna e flora aquática e o consumo humano. Ela informa ainda que foi instaurado um Inquérito Civil para acompanhar com maior rapidez os impactos e agilizar possíveis formas de prevenção.

Impunidade

Até o momento, os proprietários e principais investidores da empresa Vale não responderam a punições severas pelos crimes de 2015, com o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, também em Minas Gerais e agora o de 2019. “A Vale continua impune, continua na sua operação normal, com mesmo modelo de barragem, com mesmo modelo de exploração”, denuncia Roberto Oliveira, da Coordenação Nacional do Movimento de Atingidos por Barragens – Mab.

A abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI para investigar a Vale e a mineração de forma geral vem sendo pautada junto a parlamentares mineiros e do país, segundo Roberto. “Trata-se de um modelo de mineração, de um modelo de desenvolvimento que o Estado brasileiro é totalmente conivente, que não visa a natureza, não visa o povo. O que fica pro Brasil é a socialização da miséria, da fome e do sangue”, afirma o militante.

“Todo crime exige punição, a Vale deve ser punida”, expressou Dom Beto durante a celebração. O religioso destaca como um dos objetivos do Ato também chamar atenção da sociedade e exigir das autoridades o cuidado com o Rio São Francisco, considerando que as águas já estão comprometidas devido a contaminação do Rio Paraopeba, afluente do Velho Chico, e com os metais que serão levados rio abaixo, ultrapassando barragens, atingindo vidas.

O Ato em solidariedade às vítimas de Brumadinho e em defesa do Rio São Francisco em Juazeiro foi organizado por movimentos sociais e organizações populares, como o Mab, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Comissão Pastoral da Terra (CPT), CPP e a Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA). Em outras regiões da Bacia do São Francisco e do país também houve manifestações.


Texto e fotos: Assessoria do Ato em solidariedade às vítimas de Brumadinho e em defesa do Rio São Francisco


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