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Morte de trabalhador rural em Casa Nova causa indignação popular

Missa de sétimo dia “Espero que o Estado tome as providências, Casa Nova não tem justiça, se formos esperar vai morrer todo mundo, aqui só dão apoio aos donos do dinheiro.” Desabafa Isabel Braga, uma mulher forte, mas ainda abalada com a notícia da morte de José Campos Braga, mais uma vítima da luta por terras no interior do município de Casa Nova, norte da Bahia.

José de Antero, como era conhecido na comunidade, era um dos irmãos de Isabel. Agricultor, 56 anos, 11 filhos, vivia em Areia Grande, uma área de fundo de pasto onde habitam mais de trezentas famílias. Sua morte pôs fim ao efêmero sentimento de justiça experimentado pela comunidade, que encontra na tragédia a força para lutar pela própria sobrevivência.  

Reunidos no alpendre de um ponto de apoio localizado às margens da estrada de acesso a comunidade, os agricultores e agricultoras acompanharam no último sábado (07) as palavras de consolo dos padres Gilvan da cidade de Juazeiro, João, de Sobradinho, Josemar, de Casa Nova e do Frei Luciano, em uma missa de 7º dia realizada antes mesmo do sepultamento. O corpo de José de Antero permanece no Instituto Médico Legal-IML, pois o estado avançado de decomposição dificulta o trabalho da perícia.

O mesmo alpendre, também abriga as famílias que se revezam desde março de 2008, para proteger a área de estranhos. Foi de lá que, no dia 18 de janeiro, as mulheres da comunidade viram a aproximação de dois carros com vidros escuros, de onde saltaram os homens que arrombaram a porteira da guarita com machados e invadiram a área com a alegação de buscar alguns canos. Desde esse dia, a comunidade estava em alerta, aquele era o anuncio de que algo grave poderia acontecer.

Apesar de impactante, a morte de José de Antero, não foi à única tragédia vivenciada pela comunidade. Desde a década de 80 as famílias de Areia Grande são vítimas das ações de grileiros que usam a violência como uma prática constante. Estas terras foram apropriadas indevidamente nos anos setenta pela desmantelada Camaragibe Agroindustrial S.A., envolvida no “escândalo da mandioca”, um caso de desvio de dinheiro público ocorrido através do financiamento do plantio de mandioca para produção de álcool. A empresa faliu e deixou para trás um imenso débito junto ao seus credores.

As terras voltaram a ser utilizadas pelos agricultores, até que no dia 06 de março de 2008, às 5 horas da manhã policiais militares e civis sob a supervisão de um oficial de justiça entraram na área e com um mandado de imissão de posse, concedido pelo juiz de Casa Nova, Eduardo Ferreira Padilha, destruíram quatro casas, cercados, chiqueiros e inúmeras caixas de mel pertencentes às famílias.  A comunidade denunciou os abusos cometidos na ação policial, alegando que documentos e chaves de veículos foram confiscados e que algumas lideranças ficaram de “castigo” permanecendo dentro das viaturas por mais de 12 horas.

“Na época a ação da polícia foi questionada pelos advogados da AATR-Associação dos Trabalhadores Rurais da Bahia que começaram a desvendar a trama. A dívida da Camaragibe com o Banco do Brasil, algo em torno de 40 milhões de reais atualmente, foi “comprada” por 639 mil reais, numa agência do BB em Nova Iguaçu/RJ, pelos empresários Alberto M. Martins e Carlos Nizam L. da Silva. Com poderes assim adquiridos de negociação, eles quitam a dívida milionária dos herdeiros por R$ 700 mil, e são pagos com os imóveis contíguos supostamente pertencentes à Agroindustrial – as Fazendas Lages, Baixa do Umbuzeiro, Urecê e Casa Nova, exatamente onde estão localizados os “fundos de pasto” da Areia Grande” .  Explica o agente da CPT- BA, Rubem Siqueira.  

A casa de José de Antero foi uma das destruídas, nada sobrou do imóvel derrubado por tratores. O preço de sua vida pode ser fruto da audácia de permanecer na área, ele foi um dos primeiros a fazer resistência, tornando-se um dos símbolos da luta. Com uma lona plástica, José montou acampamento próximo a casa destruída e logo iniciou a reconstrução do que havia perdido. “Ele dizia que dali só saia morto. Esses dias andava todo feliz, porque com a ajuda da comunidade estavam recuperando quase tudo”. Relembra Isabel.  

Poucos dias após a ação policial, em 17 de março, uma noite de terror marcou a vida dos moradores de Areia Grande. Homens fortemente armados e encapuzados invadem a área e torturam homens, mulheres e até mesmo crianças, que feitas de reféns ,serviram de escudo contra qualquer ação dos trabalhadores, algumas foram queimadas com brasas. “Quando a polícia chegou não fez nada, ficaram conversando com os bandidos que ainda usavam o capuz na frente dos policiais”. Isabel recorda  que uma sobrinha grávida não resistiu ao cenário de horror e perdeu a criança.

Mesmo vivenciando um cenário constante de terror, as famílias resistiram e conquistaram na justiça o direito de permanecer na área. No final do ano de 2008, o Juiz de Casa Nova acolheu a ação de desapropriação proposta pela Procuradoria Geral do Estado, suspendendo as ações que tramitavam sobre o caso na comarca de Casa Nova.

Empolgados com as novas perspectivas trazidas pelos meios jurídicos, as famílias ainda comemoravam as conquistas quando foram surpreendidas com a chegada dos dois carros desconhecidos. Alguns dias após a invasão da área pelos jagunços, o corpo de José de Antero foi localizado por um pescador que passara em sua residência para entregar peixes. “Ele percebeu que cerca de 1 km da casa havia uma grande quantidade de urubus e resolveu ir até o local. Imaginou que era algum animal morto, mas encontrou foi o corpo de meu irmão”. Recorda Isabel, que diz não ter dúvida da relação existente entre a passagem dos jagunços e a morte de José poucos dias depois.

Inconformados os agricultores e agricultoras pedem justiça e temem que novas atrocidades continuem acontecendo. A resistência desse povo tem um alto preço, já não se pode andar sozinho pelas estradas, é preciso cuidado, andar em grupos, observar qualquer sinal de perigo e rapidamente comunicar aos demais companheiros, talvez assim outras vidas possam ser preservadas.


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