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A menina que perdeu o medo da seca no Semiárido

A menina que perdeu o medo da seca no Semiárido

Depois de ter horta e duas cisternas cheias em casa, Estefany se livra do medo que assombrou todas as gerações que lhe antecederam. Apesar disto e das secas cada vez mais extremas na região, Governo Federal ignora o Programa Cisternas

"Eu não tenho mais medo da seca", costuma dizer Estefany de Lima, com sua voz de menina de 12 anos. Ela vive no agreste de Pernambuco, que faz parte do Semiárido brasileiro, região que ocupa 72% do território nordestino.

E o que significa essa frase de Estefany, quando todos os seus antepassados, incluindo o pai e a mãe, eram tomados pelo medo, tristeza e, algumas vezes, desespero quando a chuva não vinha?

Com a palavra Seu José Severino de Lima, o pai de Estefany:

"Com meus avós era sofrido no tempo da seca. Eles sempre falavam que, antigamente, as coisas eram mais difíceis porque não tinha o reservatório. Era um tempo 'chuvedor', mas era aquela coisa, chovia ia embora as águas, caía nos córregos e riachos e ia se embora. E sempre era aquela reclamação porque pegava água de barreiro, a água não era pura, era imunda para consumo.

E [a situação] dos meus pais mesmo, que eu já cheguei a acompanhar, sempre foi difícil. A questão de não ter reservatório e a questão de longa distância pra buscar essa água. Eu com nove anos mesmo, me lembro que ia buscar água, acho que uma distância de quatro a cinco quilômetros ou mais, com lata na cabeça. O meu irmão mais veio que era mais forte carregava um galão e eu que era mais novinho carregava só um baldinho só. Tinha que pegar longe, nos povoados vizinhos, ia pro barreiro. Quando secava o barreiro, pronto! Ficava à mercê do poder público que, de vez em quando, levava uma carradinha de água para cinco a seis famílias e quando dividia, era água de riacho, água péssima. Ficava naquele sofrimento."

E como é esperar a chuva e ela não vir, seu José?

"Na região da gente, tem a tradição. Tem a chuvinha de dezembro pra fazer o pirão. Passava dezembro, meu filho, e nada! Não veio a chuva. Tarda, mas não falta. Vamos esperar janeiro. Janeiro, nada! Passou fevereiro e nada! Vamos esperar pro mês de S. José que é uma riqueza o mês de março. Quando chega o mês de março e não choveu, já começa bater o desespero. É aquela tristeza. Vou plantar sabendo que não ter colheita, sabendo que vai ter animal que não vai ter o que beber, as plantas morrendo, é um pensamento tão triste que é bom nem se lembrar.

Vai se aproximando mais, se aproximando mais, passa abril, junho, a esperança já se desespera. Às vezes, dá uma chuvada ou duas, mas não dá pra lucrar. A gente planta, mas sabendo que é mais fácil perder do que lucrar, mas se chover e a gente não jogar a semente no chão, não tem esperança. É desesperador a gente plantar, passar o ano todinho, e não vai ter chuva."

Estefany nasceu em Vertentes, município com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH/2010) de ‎0,582, considerado baixo pela escala do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Pelo menos cinco gerações que antecederam o pai José são deste município. A família da mãe, Cilene Luzinete da Silva, é de Frei Miguelinho, também no Agreste pernambucano e cravada no Semiárido. O município também tem IDH baixo: 0,576. Mais de 60% dos municípios do Semiárido tem IDH que varia de muito baixo a baixo.

E o que a declaração de 'não mais temer a seca' de Estefany testemunha sobre a convivência com o Semiárido?

"A questão da água no tempo em que ela [Estefany] nasceu mesmo era comprada, de péssima qualidade, cara, e não tinha nem onde colocar. Chegou a primeira água aqui na nossa casa já foi uma benção a primeira cisterna. Quando a gente já tinha condições de comprar água, já tinha onde colocar. Meus pais nem tinha condições às vezes [de comprar], quando tinha condições, não tinha onde colocar a água.

Quando chegou a segunda água [início de 2018] foi mesmo que estar no paraíso. Porque não se compara a gente ter um reservatório de 52 mil litros cheio na porta. Passou o ano todin, e nem sequer, chegou a 'mear', ficar meia a cisterna. Se viesse outro ano de seca, que não vai vir, se Deus quiser, a gente tem água suficiente pra nós passar a seca com esse tanto de água. Tem outro reservatório de água que está com bastante água também.

Foi um sonho e, graças a Deus, virou realidade e bem realidade. Porque além, que eu tô com bastante coisa plantada aqui na minha roça, tem também a água. Primeira coisa é a água. Ficar sem água, meu Deus do céu, é uma tristeza.

A minha filha e o meu moleque pode dizer que a seca não exite mais."

As tecnologias que guardam a água da chuva para as horas de precisão viraram políticas públicas desde 2003. A ação da sociedade civil organizada foi determinante para o desenvolvimento e execução desta política, que se materializa por meio do Programa Cisternas, com recursos previstos no orçamento geral da União.

O abastecimento se dá pertinho de casa, sem necessidade de aparelhos caros para transformar a água salobra em água menos salgada, nem de outras tecnologias mirabolantes e de alto custo e difícil manutenção.

No caso da família de Estefany, a cisterna de primeira água passou a ser usufruída por eles meses depois do nascimento dela. A família começava a deixar pra trás o sofrimento trazido com a falta de água potável. Mas só dez anos depois, no início de 2018, é que a família recebeu a cisterna de segunda água, com 52 mil litros que guarda água para a produção de alimentos e criação animal.

No início de 2018, a família deles foi uma das 2.370 que começou a participar da modalidade piloto do Programa Uma Terra e Duas Águas, conhecida como P1+2 Fomento, por unir a política de acesso à água à política do fomento produtivo. Para ser incluída no programa, a família tinha o perfil do público-alvo: estar em situação de pobreza.

Segundo a Síntese de Indicadores Sociais (SIS), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2017, havia 54,8 milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza, sendo 43,4% de crianças de 0 a 14 anos, como Estefany e José Jeferson, seu irmão de 7 anos.

Por participar do P1+2 Fomento, a propriedade de '25% de um hectare' da família recebeu não só uma cisterna grande e mais R$ 3 mil para eles comprarem insumos e melhorarem a infraestrutura a partir de seus próprios critérios. Também receberam acompanhamento técnico por dois anos. Seu José participou de cursos para gerenciamento do sistema produtivo e também para aprender técnicas da agroecologia.

Com os R$ 3 mil, a família de Estefany construiu um galinheiro maior, comprou mais animais e mangueiras para o sistema de irrigação simples, um que seu José aprendeu com uma família agricultora de Taquaritinga do Norte.

Depois da cisterna-calçadão e do investimento, a família planta hoje uma horta variada e já colhe quantidade suficiente para se alimentar e vender aos vizinhos: couve, alface, coentro, rúcula, salsa, pepino, repolho, cenoura, beterraba e berinjela. Além de pés de frutas como a laranja, manga e o mamão. "A comunidade está se alimentando bem porque estou vendendo para ela", brinca seu José que mostra ter um grande dom para comércio.

Orgulhosa, Estefany conta também sobre a repercussão de uma postagem sua no whatsapp com a foto do boletim O Candeeiro, que registra a mudança pela qual a família vem passando. "A professora viu [o post]. Pediu para levar vários produtos para ela. Hoje recebo encomenda de outros professores. A entrega é tanta que preciso da ajuda do meu pai para levar tudo pra escola", diz com um sorrisão no rosto.

Seu José emenda: "Com isso, vou incentivando os meus dois filhos para não sair do campo". Quando jovem, ele trocou o campo pela cidade e voltou arrependido. "Onde tem água tem tudo. E onde tem água, precisa ter coragem. Sem coragem não dá pra fazer nada", falou ele arrancando risos de uma plateia de técnicos de organizações de assessoria à agricultura familiar que faz parte da ASA, pesquisadores e de representantes de instituições que apoiaram o P1+2 Fomento, o Banco Nacional de Desenvolvimento Regional (BNDES) e o Ministério da Cidadania. Todos os assistiam falar - seu José e Estafany - no encontro de Avaliação do P1+2 Fomento, no início de março.

"A renda está quase pertin do salário mínimo com a minha terra", anuncia orgulhoso seu José. Com isso, a família de cinco pessoas (os pais, Estefany, o irmão José Jeferson e a avó paterna) atinge a renda per capita de R$ 240, quando o Banco Mundial considera que estão enquadradas na situação de pobreza as famílias com renda per capita inferior a cerca de R$ 406 por mês.

Assim como esta família esperou pela cisterna de segunda água por dez anos depois de ter acesso à cisterna menor, 797,5 mil famílias só do Semiárido se mantém na lista de espera por tecnologias que armazenam água para o plantio de hortaliças e verduras, para os pés de fruta e criação animal no quintal de casa, segundo levantamento da ASA.

Apesar da grande demanda, o Programa Cisternas só acumula redução orçamentária ano a ano, que resulta numa execução física ainda inferior ao valor orçado. Segundo reportagem publicada no site Outras Palavras, "o recorde negativo na execução, o dinheiro efetivamente gasto, é de Michel Temer (PMDB), em 2017. Segundo relatório de monitoramento da Câmara Interministerial de Segurança Alimentar (Caisan), apesar de aprovado na LOA um orçamento da ordem de R$ 248,8 milhões, ao final daquele ano o saldo efetivamente disponível para novas contratações foi reduzido a R$ 49,05 milhões." Naquele ano, foram entregues à população rural de todo o Brasil apenas 55 mil tecnologias de acesso à água.

Em 2018, o cenário foi ainda mais desastroso: 24,1 mil equipamentos construídos. Desempenho mantido em 2019: 24,8 mil.

O Plano Plurianual (PPA) 2020-2023 reservou, no Orçamento Geral da União para o Programa Cisternas, apenas R$ 183 milhões. Esse valor equivale a 3,28% dos R$ 5,5 bilhões apontados como necessários pela ASA, neste mesmo período, para zerar a fila de espera atual das tecnologias de primeira água e avançar no atendimento às demandas pela segunda água. 


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