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Sororidade em Rede: produção e comercialização para uma vida livre da violência

Sororidade em Rede: produção e comercialização para uma vida livre da violência

É sob o sol do Sertão Nordestino que Jaciara Ladislau, conhecida como Kiki, realiza as atividades de casa, as atividades produtivas no roçado, a comercialização de sua produção na feira agroecológica quinzenal do município de Sento Sé na Bahia e coordena a Rede de Mulheres do Sertão do São Francisco.

A rede foi criada nos anos 80 com o objetivo de empoderar as mulheres para o desenvolvimento do meio rural com inclusão e oportunidades para todas. Atualmente, a rede trabalha com aproximadamente 150 mulheres de 10 municípios do território do Sertão do São Francisco, produzindo aves, ovos, caprinos, ovinos, feijão, melancia, milho, mandioca e seus derivados, pescado, mel, hortaliças e artesanatos.

Para a Rede de Mulheres do Sertão do São Francisco, a mulher nasce para florir, embelezar, germinar, frutificar, sombrear e enraizar. Contudo, entende que para que isso possa ocorrer é preciso sanar toda e qualquer forma de violência contra as mulheres. Kiki conta que nas vivencias da rede, ela já presenciou diversas formas de violência contra as mulheres. “Além da violência física, temos violências menos vistas, como a violência psicológica e patrimonial, que são as que mais presenciamos nas mulheres da rede. Já tivemos casos em que um mulher não tinha acesso nem aos próprios documentos”.

Entre os trabalhos realizados pela rede com o intuito de combater a violência contra as mulheres, estão: formações técnicas, políticas e de gênero; inclusão das mulheres em projetos dos governos municipais, estaduais e federais; organização produtiva dos grupos de mulheres; inserção das mulheres nas feiras agroecológicas da rede; e abertura de mercados locais, regionais ou de cadeias longas para a comercialização da produção feminina. “As mulheres da rede têm produtos sendo vendidos além das feiras agroecológicas, na loja da Central da Caatinga e da Cesol, e também em feiras regionais e estaduais”, explica.

Entre os trabalhos de formação da rede, está a desconstrução sociocultural sobre o ser homem e o ser mulher, que fez com que todo o protagonismo do trabalho da mulher com a terra fosse invisibilizado, e reduzido ao trabalho reprodutivo –cuidado com a família, os filhos; o trabalho do quintal e do terreiro– aqui já um trabalho produtivo, mas, ainda visto como reprodutivo, como trabalho de mulher, e também muito do trabalho produtivo do roçado, que nesse rol de desvalorização, foi, e é chamado até os dias atuais de “ajuda”.

No intuito de visibilizar o trabalho feminino, Kiki aponta a potência dos processos agroecológicos como meio de pôr fim a essa violência do não reconhecimento do trabalho da mulher rural. Quando se trabalha com os processos agroecológicos, as mulheres entendem o valor do seu trabalho de produção. “Temos casos de mulher que passou a reivindicar seu trabalho. Uma mulher chamou a técnica de lado e disse que o trabalho que o marido dizia que fazia, quem fazia era ela. E ela passou a não aceitar mais a invisibilidade do seu trabalho, participando inclusive de reuniões”, contou Kiki.

De acordo com a produtora, a rede tem a clara compreensão de que a valorização do trabalho das mulheres em suas diversas frentes no meio rural e o acesso a renda por parte delas, são fatores primordiais para que sejam efetivamente consideradas sujeitas de direitos, tenham sua autonomia e saiam de situações de violência. Umas formas que a rede encontrou de somar as forças das mulheres rurais foi através das cadernetas agroecológicas, que vem utilizando a pouco mais de um ano, e que quantifica e valoriza o trabalho da mulher rural.

Entre as modificações causadas pelas cadernas agroecológicas, está o fato das mulheres se sentirem no direito ao lazer e ao descanso. “Após o trabalho com as cadernetas, as vezes vemos as mulheres sentadas. E antes nunca víamos essa situação. E ao questionarmos este comportamento elas dizem: eu sento porque a renda que entra na minha casa vem do meu trabalho produtivo e não só dá produção do meu marido”.

Além das cadernetas possibilitarem a troca de saberes, também fortalece os conhecimentos femininos e a sororidade entre as mulheres rurais.

Como coordenadora da rede, Kiki, entende que a invisibilidade do trabalho das mulheres as silencia quanto a ser parte das tomadas de decisões no ambiente familiar, e reflete como elas estão em espaços de representação da agricultura familiar. É a partir disso que a rede desenvolve ações de fomento à participação das mulheres nas entidades representativas da sociedade civil organizada. “Sempre conversamos com as mulheres para que essas possam assumir os cargos de diretoria, apesar de muitas ainda preferirem assumir os cargos de secretárias. Mas, algumas se atrevem e assumem as lideranças”.

A rede acolhe, se faz presente e é um espaço onde as mulheres se sentem confiantes para relatarem suas dores com relação às violências sofridas. “No espaço das feiras promovidas pela rede, não podemos dizer que acabou toda a violência contra as mulheres, mas podemos afirmar que melhorou bastante a violência em todos os aspectos e a violência física se existiu, agora não existe mais”, celebra Kiki.

“Em coletivo, encontramos forças umas nas outras”. Esta sororidade coloca as mulheres em atuação conjunta para valorizar sua produção de alimentos, e as coloca em situação de liderança para serem defensoras da segurança alimentar e nutricional e da agroecologia. “A articulação das mulheres rurais tem subvertido diversas situações de silenciamento e finalmente as escutado e enxergado todo o trabalho de forma merecida que elas realizam”.

15 dias de iniciativas inspiradoras

A história de Jaciara Ladislau foi enviada pelas Embaixadoras da Campanha de Mulheres Rurais, Simone Santarém e Mariana Martins, e faz parte da ação “15 dias de iniciativas transformadoras”, parte da campanha #MulheresRurais, mulheres com direitos. Amanhã, a campanha celebra o Dia Internacional das Mulheres Rurais.

 

Fonte: Site da FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura
 


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