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Festa Literária em Uauá cenário de inspiração para resistência popular

Festa Literária em Uauá cenário de inspiração para resistência popular

 “Para que o encontro seja verdadeiro, a gente precisa sair dele melhor. A gente precisa ter aprendido, tocado, sentido o outro para ser encontro verdadeiro”, foi o sentimento expressado pelo escritor Daniel Munduruku, durante a primeira Festa Literária de Uauá - Fliu e vivenciado por todos/as no evento, que promoveu um espaço para a literatura, arte, cultura popular e temas de resistência.

Um desses temas foi a invisibilidade dos povos indígenas, discussão que foi abordada na mesa “Povos Tradicionais: resistências e diversidade”, composta pelo escritor Daniel Munduruku e o cineasta Póla Ribeiro e mediação de Cícero Felix, coordenador geral do Irpaa, na última sexta-feira (15), no auditório do Colégio Estadual Nossa Senhora Auxiliadora, em Uauá.

O escritor e professor Daniel Munduruku, que nasceu em Belém, Pará, filho do povo Indígena Munduruku, levou aos participantes da Fliu a fazerem uma reflexão sobre o massacre e invisibilidade que os povos indígenas vem sofrendo desde a invasão dos europeus ao Brasil. Para Munduruku, a cultura europeia tentou suprimir a cultura indígena, o que provocou uma narrativa repleta de equívocos históricos e culturais quando o assunto é o povo indígena. “O que eu procuro trazer nos meus escritos, na minha literatura é exatamente a desconstrução dessa narrativa, mostrar que nós temos uma história, uma cultura, uma tradição, e que essa tradição tem um sentido de ser, não é uma coisa aleatória, nós não somos aventureiros. Nós somos culturas que são seculares, às vezes milenares”, explica o escritor.

Daniel Munduruku apresentou dois estereótipos sobre o que se entende como índio no país. A primeira visão é baseada na perspectiva romântica, presentes principalmente nas literaturas, e a segunda imagem do índio como selvagem, preguiçoso, atrasado, visão com cunho mais ideologizada. “Nós recebemos na nossa formação oficial uma narrativa que coloca os povos indígenas sempre no contexto de inferioridade, como se os indígenas fossem responsáveis pelo atraso brasileiro (...), quase sempre uma narrativa que os indígenas atrapalham o progresso, o desenvolvimento do Brasil, que é uma narrativa do colonizador”, argumenta Daniel.

Esses conceitos foram construídos ao longo dos anos e perpetuados nas escolas, nos meios de comunicação, entre outros espaços, como explica Daniel: “com essa narrativa única, essa narrativa do vencedor [ colonizador] nunca foi desfeita, essa narrativa acaba sendo imposta para a sociedade brasileira através da educação, da escola e através da cultura muitas vezes e através dos meios de comunicação também. Então é preciso reeducar os pensamentos dessas instituições”.

Para o escritor a proposta é descolonizar o pensamento da população brasileira e assim livrar seu povo do preconceito enraizado e que destrói milhares de culturas indígenas existente no país. “Pegando esses três meios de transmissão de conhecimento [educação, cultura e a comunicação] a gente consegue fazer um novo caminho, o de conscientização, porque tudo passa pela conscientização, tudo passa pela necessidade da gente desconstruir o que nos foi dado e colocar uma outra narrativa no lugar, uma narrativa que contemple as diversas vozes que existem no Brasil, que são as vozes ancestrais, as vozes originárias, junto com as outras vozes que foram chegando por aqui, como os africanos”, declara Daniel.

De acordo Munduruku, os povos originárias têm muito o que ensinar, os indígenas prestam um serviço ao Brasil, a exemplo da preservação das matas, o modo de viver, “nós não vivemos no passado e muito menos no futuro, vivemos no presente [...], só existe o presente, o passado é importante mas já passou, o futuro é um tempo que não existe, é um tempo que só é especulação da nossa cabeça, só uma ficção, então o único fato é o que temos hoje, no presente e é isso que nos torna felizes ou infelizes, é viver bem esse momento, pra isso é preciso ter uma educação que passe pela educação do corpo e da alma, do espírito da gente” explica Daniel.

Foi esse olhar de Daniel que sensibilizou e chamou a atenção da jovem Talia Matos dos Santos, que revela: “o que me marcou aqui foi a mesa que teve com Daniel Munduruku, eu gostei porque ele falou sobre as questões indígenas, coisas que eu não sabia e ele também falou algo muito bom. Principalmente para nós adolescentes há muita cobrança do que a gente vai ser no futuro e a gente acaba não pensando no que a gente tá fazendo no presente e isso traz muitas frustrações”, argumenta a jovem que saiu de Euclides da Cunha para prestigiar a Fliu, motivada pelo gosto pela leitura.

Fliu um espaço de luta e resistência


A Festa Literária de Uauá - Fliu, aconteceu entre os dias 14 a 16 de novembro com o propósito de difundir e valorizar a literatura, arte e a cultura popular, reunindo autoras e autores representativas/os da literatura regional e nacional. A programação contou com uma diversidade de debates, filmes, apresentações culturais, lançamentos de livros, músicas, cantadores/as, exibição de vídeos. “Os temas das mesas foram pensados no cenário político, desde a mesa de gênero, a mesa dos povos indígenas e da diversidade, (...) sempre com a concepção de trazer temas que abordassem o que tá acontecendo , afinal de contas a arte é viva, ela é diária, ela é presente”, pontua o cordelista Maviael Melo, curador da Fliu.

Para a cantora, compositora e historiadora, Juliana Ribeiro, que participou da mesa “Minha poesia cabe na sua melodia?”, composta só por mulheres, é preciso usar o poder da arte para romper barreiras, preconceitos e contribuir no processo de empoderamento das pessoas. “Arte é o que fluidifica as relações, arte é como água, a arte permeia todos os lugares, por isso ela é tão importante, por mais dura que seja as pessoas a arte consegue chegar e fluidificar as relações, por isso é tão importante o papel do artista na sociedade, ele fluidifica até as pessoas mais preconceituosas”, argumenta a Juliana.

Maviael Melo encerrou a feira com o sentimento de gratidão e definindo a festa com a frase: “letras que brilham”, com articulações e desejo de promover novamente esse brilho na terra dos vagalumes, com a segunda Festa Literária de Uauá, em 2020. A Fliu é uma realização da Uauá Projetos Criativos e da Prefeitura de Uauá, com patrocínio do Governo do Estado da Bahia, Fundação Pedro Calmon, Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa) e Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia (APLB), além de contar com apoio de algumas instituições como a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercu).

Texto e fotos: Comunicação Irpaa

 

 

 


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