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Saúde mental e social: uma discussão necessária

Saúde mental e social: uma discussão necessária

Nos últimos anos, a crescente situação de agravamento da saúde mental de brasileiros e brasileiras tem mostrado um cenário preocupante, porém as discussões sobre as raízes deste crescimento e ações de políticas públicas que deem atenção para esta problemática, quase não têm acontecido. Neste mês de janeiro, muito tem se falado da campanha Janeiro Branco, assim, para refletir sobre esta temática, convidamos o terapeuta popular em biosaúde, Diacísio Ribeiro Leite, que também é graduando em Psicologia pelo Instituto Multidisplinar em Saúde – campus Anísio Teixeira da Universidade Federal da Bahia, em Vitoria da Conquista- BA, para nos ajudar a refletir melhor sobre estas questões.

Irpaa: No mês de janeiro temos visto circular a campanha Janeiro Branco. Você pode explicar qual o objetivo e quais aspectos desta campanha poderia ser dado foco?

Diacísio Leite: A campanha “Janeiro Branco”, organizada por segmentos de nossa categoria (psicólogos), com ampla divulgação nas redes sociais e nas mídias nacionais, tem basicamente o mesmo mote das demais campanhas dos outros meses coloridos, como o Outubro Rosa, o Novembro Azul, dentre outros.

O próprio Conselho Federal de Psicologia tem uma nota publicada no ano de 2017 onde se posiciona frente à campanha. Reconhece a sua relevância por se tratar de um incentivo à busca da psicoterapia para o cuidado com a saúde mental, promove a visibilidade de um dos campos da prática profissional da (o) psicóloga (o) e incentiva a sociedade a se aproximar mais das questões relativas ao sofrimento psíquico. Janeiro é escolhido por, supostamente, ser o mês no qual as pessoas refletem sobre a própria vida e sobre os projetos para o ano que se inicia.

Seria ingênuo de nossa parte querer esconder que, para além da preocupação com a saúde da população, existe aí uma estratégia mercadológica. Portanto, tem alguns aspectos que devemos considerar dentro dessa estratégia de campanha midiática, como:
- A escolha do Branco como sobrenome da campanha tem um significante que não pode ser desconsiderado, visto que vivemos num país onde o racismo é estrutural e impera de forma aberrativa na nossa sociedade.
- Estas campanhas trazem sempre um risco de naturalizar e culpabilizar o sofrimento mental somente no indivíduo, ou até mesmo o adoecimento físico, no caso dos demais meses coloridos. Essa maneira de abordar leva-nos a criticar se o objetivo maior não seja angariar clientela e levar adiante a lógica do processo de medicalização.

No caso da saúde psíquica, temos presenciado um tempo em que todos os nossos mal-estares psíquicos têm sido associados a algum funcionamento disfuncional do cérebro. Parece que o nosso sistema nervoso central é o único ou o principal responsável pela saúde mental do ser humano. Nessa lógica, a patologização da vida cotidiana justifica a medicalização massiva da sociedade. Essas campanhas também, se não debatidas criticamente, sustentam esse modo de pensar.

Irpaa: Qual é a ideia de saúde mental que estamos reforçando com estas campanhas? Vejamos alguns slogans de campanhas já realizadas, por exemplo:
“quem cuida da mente, cuida da vida”; “quem cuida das emoções, cuida da humanidade”; “quem cuida de si, já cuida do outro”; “sem psicoeducação não haverá solução”; “autoconhecimento: isso também tem a ver com a sua saúde mental”; “o que você não resolve em sua mente, o corpo transforma em doença”.
Esse tipo de chavão, reforça a ideia de saúde mental como sinônimo de “ser feliz”, “ter estabilidade emocional”, e estar adaptado(a) ao meio. Diante disso, as discussões sobre saúde mental ainda são muito focadas nas questões de adoecimento por fatores do indivíduo, mas o que é importante considerar no cuidado com a saúde mental?

Diacísio Leite: O sofrimento e o adoecimento mental são multifatoriais. Portanto, não podemos reduzir à responsabilidade do sujeito. As pessoas vivem e se relacionam com sua realidade sociocultural. Vale ressaltar, que somos uma sociedade marcada pelas desigualdades sociais, por injustiças, por preconceitos, por violência de todas as formas.

Se queremos falar de saúde mental, temos que politizar o debate. Se queremos falar de saúde mental, temos que estar atentos e denunciar às diferentes manifestações de violência que acometem populações vulneráveis, como povos tradicionais (povos indígenas, quilombolas, dentre outros); denunciar as injustiças presentes no mundo do trabalho; denunciar as mazelas advindas da destruição do meio ambiente; denunciar a violência cometida pela sociedade civil e pelo estado contra populações em situação de rua; denunciar as várias formas de violência cometidas contra a população LGBTQIA+.

Seria, a meu ver, uma grande incoerência, se propor a cuidar da saúde mental e não se importar com as injustiças sociais, no trânsito, na fragilização das relações de trabalho, na situação econômica e política do país, no modo como lidamos com as minorias e populações mais frágeis, no modo como educamos nossas crianças, ou seja, em todos os aspectos que interferem na vida das pessoas.

Irpaa: Você considera importante esta campanha para ampliar o debate acerca da saúde mental?

Diacísio Leite: Janeiro Branco é importante? Sim. Desde que qualifiquemos o debate chamando a atenção da sociedade para a importância do elo entre saúde mental e saúde social, indicando que o cuidado deve acontecer “dentro” e “fora” dos sujeitos e, sobretudo, “entre”, ou seja, em tudo o que diz respeito às nossas relações. E isso requer política pública. Sobretudo no contexto atual onde impera a política de destruição massiva de direitos duramente conquistados por estas populações supracitadas. Sobretudo, dentro de um contexto em que uma pandemia alterou profundamente os modos de vida da população mundial, evidenciando ainda mais as desigualdades sociais. Sobretudo, num país onde impera uma política neofascista, negacionista, com inspirações neonazistas. Falar de saúde mental ignorando esse contexto é pura hipocrisia.

Entrevista: Eixo Educação e Comunicação
Foto: Divulgação
 


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