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Memória e resistência: Dia da Consciência Negra é luta contra o racismo todos os dias

Memória e resistência: Dia da Consciência Negra é luta contra o racismo todos os dias

O dia 20 de novembro é considerado uma data marco na luta contra o racismo e todas as opressões ao povo negro. Esta data é uma memória a Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, que foi perseguido e assassinado em 1695 por agentes do governo, que queriam impedir a liberdade do povo negro que era escravizado.

As questões do racismo e opressão por causa da cor da pele ainda é muito presente no Brasil do século 21. Para refletir sobre essa história de luta e resistência, entrevistamos Viviane Costa, que é representante da Rede de Mulheres Negras de Petrolina (PE) para falar sobre o assunto.


Qual simbologia tem as comemorações do Dia da Consciência Negra?

O dia da Consciência Negra é de suma importância, porque não se configura como uma comemoração, se configura como sendo um dia de luta, de resistência e principalmente de memória aos nossos antepassados. Aquelas pessoas que lutaram contra a escravidão: Zumbi, Dandara, Aqualtune e Luisa Mahin, que são referências de luta contra a escravidão. Infelizmente o nosso país ele foi formado dentro de um contexto escravista, onde uma raça se dizia superior a outra. Então o dia da Consciência [Negra] é pra levar ao povo, levar para a população, a importância que tem nossa história, e pra desconstruir o racismo. Pra acabar com o racismo então precisamos referendar essa data como uma data de luta contra o racismo.


Nos últimos anos têm aumentado as lutas e denúncias sobre o racismo, a que você atribui isso?

Infelizmente o racismo é presente na nossa sociedade em todos os ambientes. O racismo está impregnado na formação do Brasil. O fato de hoje ter aumentado o número de denúncias, o aumento das lutas, onde as pessoas vem se manifestando nas redes sociais, vem abordando essas questões, não quer dizer que nunca existiu, sempre existiu um povo resistente, sempre existiu pessoas lutando contra o racismo. O racismo sempre existiu no Brasil, porém a gente tem um fenômeno chamado internet. A gente tem esse fenômeno que a gente pode tirar uma foto, a gente pode filmar, e a denúncia se espalhar para o mundo todo. Então o racismo hoje está sendo televisionado, ele está sendo visto na internet, mas sempre existiu. Então entendemos que a internet e as redes sociais estão sendo o refúgio para nossas lutas e dores, onde a gente expõe isso e mostra que realmente o racismo está ai, existe e precisa ser combatido.

Tem se discutido muito sobre racismo estrutural. De que maneira ele se dá, e como ele acontece na prática?

O racismo estrutural é o racismo que é forjado dentro da estrutura de formação do Brasil. Quando a gente se diz um povo colonizado, onde a gente entende na nossa história, que vieram um povo trazido da África como escravos, e a formação de toda a nossa cultura, de toda a nossa linguagem, de nossa arquitetura, tudo que está a nossa volta tem uma história de escravidão. Esse é o racismo estrutural, que está na estrutura da base da nossa sociedade, do Estado. A gente precisa entender o racismo institucional, esse racismo institucional é aquele racismo que as vezes as pessoas não percebem, mas ele existe, e você não consegue identificar. Um exemplo disso muito simples: você é uma pessoa negra, coloca seu curriculum em uma empresa, e a empresa pede foto e diz que você não tem uma boa aparência para aquela empresa. Então você não é contratado, mas o seu curriculum é competente, você tem todos os cursos, tem formação, mas não é contratado, porque, para aquela empresa você não tem uma boa aparência. A dita boa aparência. Esse é o racismo institucional, você é impedido de ter aquele emprego pelo fato de ser uma pessoa negra, por você não se adequar aquele espaço. Outro exemplo é quando se tem um atendimento médico, quando se é negada a informação à pessoa pelo fato de ser negra. A gente tem a saúde da população negra que é uma saúde fragilizada, específica, porém quando a gente vai no atendimento, e, é negado essas informações, tanto para a mulher negra grávida, tanto como para o homem que vai ser atendido e precisa de medicamentos específicos para ele enquanto negro e isso é negado, isso é racismo institucional. Quando te é negado algum atendimento, algum serviço pelo simples fato de você ser negro. Então a gente precisa está atento a isso, precisa compreender essa estrutura pra gente combater os mecanismos que nos oprime.

Sobre a força do machismo nas mulheres, você acredita que ele se apresenta diferente para as mulheres negras? De que maneira?

Não acredito que nós mulheres sejamos machistas. Eu acredito que nós mulheres reproduzimos o machismo pelo qual fomos criadas para repetir, para reproduzir. Precisamos compreender também que esse machismo que é reproduzido pela mulher, ele se dá de forma desigual quando se é com as mulheres negras. Porque nós mulheres negras ainda estamos na base da sociedade, somos superiores somente aos animais. Então as mulheres brancas, elas ainda estão na pirâmide social, acima dos homens negros. Essa lógica se dá, quando nós percebemos que ainda, enquanto mulher negra, estamos lutando para sobreviver. Nós, mulheres negras ainda luta pela vida. Pelo direito à maternidade, pelo direito da existência. Somos negadas, tudo para as mulheres negras é negado. Negado o direito, negada à educação, negada a habitação. Toda a estrutura social está oprimindo a mulher negra na base da sociedade. Então essa lógica se dá de forma muito específica para as mulheres negras.

Muitas pessoas ainda apresentam dificuldades de dizer “sou negro, negra”. Onde percebe que está a raiz dessa negação?

Essa negação de se autoafirmar enquanto negros e negras, é uma negação que tem raízes históricas e subliminares. Quando a gente vai para a escola tudo que é colocado para o negro, é ruim. Tudo que é exposto para aprender sobre o negro é ruim. O negro foi escravizado, o negro levou chicotada nas costas, o negro carregava os brancos nas costas, o negro servia o senhor. Trabalhava na cana-de-açúcar, cortava algodão. Então tudo que se aprendeu na escola sobre negro, foi de forma ruim, foi de forma negativa. Quando a gente cresce, a gente começa a achar que tudo que se relaciona ao negro é uma coisa ruim, logo eu não quero ser negro, já que tudo que é ligado a ser negro é ruim. E a gente precisa mudar isso, mudar esse pensamento. Se a coisa tá preta, a coisa tá boa! Quando você e se afirma enquanto negra, enquanto negro, você aceita sua cor, você aceita o seu cabelo, você valoriza a cultura africana, a cultura negra. Logo você muda a concepção de visão de mundo. E essa concepção e essa visão de mundo ela precisa ser ensinada nas escolas, elas precisam ser colocadas na televisão de outra forma. A gente sempre assistiu a novela, quando assiste a novela: a empregada negra, o motorista negro. Todos os empregos subalternos, todos os empregos que ganham menos é pra negros. Então pra quê que eu vou querer ser negro? Pra quê que eu vou querer se afirmar enquanto negro? A gente precisa mudar no imaginário das pessoas essa relação de que ser negro é ruim. A gente precisa valorizar que nós negros construímos o Brasil. Toda a nossa cultura ela se dá dentro da formação do povo negro. A gente precisa mostrar o bom de ser negro, as qualidades de ser negro, de ser negra, para as pessoas entenderem que não é ruim ser negro, que não é criminoso dizer que é negro. Por muito tempo, os negros foram perseguidos, os negros foram maltratados, escravizados, presos. Então você se autoafirmar enquanto negro, é mostrar que você pode ser diferente disso que foi colocado como regra na sociedade.

Sabe-se que a história mostra que para vencer essa sociedade com comportamentos e práticas que reforçam o racismo, é preciso pautar muitas mudanças. Quais delas podem ser iniciadas no cotidiano? E no âmbito das políticas públicas?

Como pedagoga eu entendo que a educação ela é primordial para a transformação da sociedade. A educação tem o poder de transformar, conscientizar, de levar de forma transformadora o pensamento e o cotidiano das pessoas. Falar sobre o racismo, combater o racismo é necessário em todos os âmbitos: no trabalho, na escola, na faculdade, na roça, no barzinho. A gente precisa entender a lógica do racismo, pra entender como ele opera, pra combater esse racismo que está impregnado em toda a sociedade. A gente precisa falar, a gente precisa ir em uma rádio pra falar sobre isso. É bom quando a gente é convidado para dar uma entrevista e falar sobre isso e fazer você, ai do outro lado, pensar sobre isso também. A gente precisa estar sempre abordando e fazendo as pessoas despertarem para esse tema e refletir. Porque através disso a gente consegue mudar a consciência, mudar as ações, o pensamento.

Entendemos que a população negra, dentro desta desigualdade social que é o Brasil, entendemos que essa desigualdade ela é muito cruel para população negra e a gente precisa sim de políticas públicas direcionadas para a população negra. Não podemos esconder mais isso, não podemos mais fingir que não existe. Não podemos também negar as políticas públicas que já foram criadas, como as políticas de cotas universitárias; como as secretarias de promoção e igualdade racial. Infelizmente, nesse retrocesso onde nós vivemos, em que o nosso presidente aniquila todas as conquistas da população negra, quilombola, indígena, que nessa desigualdade em que o Brasil está, a população negra é a que mais sofre sem políticas públicas. É a que mais sofre sem saneamento básico, sem educação de qualidade. A gente percebe que a morte da juventude negra ela é vidente neste país. A gente sabe que a mão do Estado ela é cruel quando se fala da população negra. É a população negra que está mais encarcerada. São as mulheres negras são as que mais sofrem nos corredores dos hospitais, então a gente precisa muito criar políticas públicas que transformem a sociedade, que minimize essa desigualdade em que o povo preto, o povo negro sofre. E está sempre oprimido.

Texto: Comunicação Irpaa / Foto: Viviane Costa 


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