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No mês da água, colaborador do Irpaa alerta para privatização da água e necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento

No mês da água, colaborador do Irpaa alerta para privatização da água e necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento

A cada ano, a Organização das Nações Unidas – ONU escolhe um tema para ser debatido no Dia Mundial da Água, dia 22 de março, sendo a temática deste ano “Água e mudanças climáticas”. Em consonância com o tema, o Programa Viva Bem no Sertão, um dos canais de comunicação do Irpaa, entrevistou* André Rocha, colaborador da instituição que atua no Eixo Clima e Água e coordena as ações de um projeto que trabalha a proposta da Convivência com o Semiárido e Adaptação às Mudanças Climáticas, desenvolvido em Alagoas, Bahia, Pernambuco, Piauí e Sergipe.

André faz uma avaliação acerca dos debates pautados durante o mês da água e propõe uma reflexão da temática da água em várias dimensões, alertando para um cenário onde “cada vez mais cresce o interesse, as manobras, os projetos políticos de privatização, uma tentativa de cada vez mais as empresas, o grande capital, se apropriar desse bem [a água] que deveria estar acessível à população como um bem comum e não como uma mercadoria”, declara.

O colaborador do Irpaa também denunciou os cortes de recursos em programas como o P1MC (Programa Um Milhão de Cisternas) e P1+2 (Programa Uma Terra Duas Águas), que apresentavam resultados significativos. Segundo André, ainda há uma demanda muito grande de acesso à água de beber e à água para a produção de alimentos.

O coordenador do Eixo Clima e Água fala ainda sobre a seca e as recentes chuvas no Semiárido brasileiro, tendo como pano de fundo as mudanças climáticas, no contexto em que os fenômenos El Niño e La Niña não exercem grande influência no clima na região nesse primeiro trimestre de 2020, ou seja, as condições climáticas, sob influência de fatores atmosféricos e oceânicos que atuam localmente, tais como a temperatura da superfície do Atlântico Sul, proporcionam um cenário onde a expectativa é de chuvas que se aproximam da média histórica do Semiárido.

O programa Viva Bem no Sertão é exibido semanalmente em rádios da Bahia, Pernambuco e Piauí. Quem perdeu o programa no rádio pode acessar na seção de áudios a edição 12.2020 do programa e conferir também outras informações.

Viva Bem no Sertão - A gente conversa agora com André Rocha, que vai nos falar sobre a questão da água, neste momento em que está próximo da data em que se celebra o Dia Mundial da Água.


André Rocha - Estamos aqui para contribuir com o tema de grande relevância, o tema da água, já que estamos vivendo um período em que a água está em evidência, seja pelas reflexões que envolvem o Dia Mundial da Água, 22 de março, a semana da água de 15 a 22 de março, seja na proximidade de 19 de março, dia de São José. Então março é o mês das águas e realmente a gente tem várias dimensões que podemos abordar a água, em resumo nós precisamos refletir ao nível global, onde cada vez mais cresce o interesse, as manobras, os projetos políticos de privatização, uma tentativa de cada vez mais as empresas, o grande capital se apropriar desse bem [a água] que deveria estar acessível à população como um bem comum e não como uma mercadoria.

Nós sabemos que existe a necessidade de uma luta grande frente a esses interesses crescentes de transformação desse bem em mercadoria, inclusive no Brasil, com alguns projetos em tramitação no Senado, onde há um interesse crescente de abrir espaço para exploração do serviço para a apropriação de recursos naturais cada vez mais por empresas privadas, ao invés de ter a água sobre gestão e cuidado do serviço público, que é o ideal para que todos possam ter acesso, sobretudo as populações mais vulneráveis.

Viva Bem no Sertão - Não dá para falar, em um contexto mundial, de uma mudança de visão do que significa a água e como ela deve ser gestada?

André Rocha - Nós estamos, ou pelo menos, estávamos até pouco tempo, numa crescente desse modelo capitalista de mercantilização de tudo que é recurso, de tudo que é bem. Talvez estejamos chegando agora em um momento oportuno de reflexão sobre esse modelo consumista, desenvolvimentista, com concentração de renda e poder. Mas não dá para se falar ainda se vamos conseguir realmente repensar o modelo de desenvolvimento de consumo e de gestão dos bens naturais. A nível Nacional nós vivemos, por exemplo, nos últimos anos uma interrupção de programas públicos de acesso à água com grandes resultados, sobretudo no Semiárido, uma região muito castigada pela escassez de água ou abundância em um período e falta em outros e os programas como P1MC e P1+2, que aliados a outros programas de inclusão social reverteram o quadro de fome e sede no Semiárido e de morte infantil por falta de água ou por água de má qualidade, ao longo das últimas décadas os programas reverteram esse quadro, trazendo vida dignidade segurança hídrica e alimentar e os últimos dois governos [federais] cortaram orçamento, quando não extinguiram verba desses projetos que garantiam o acesso à água.

Sabemos que existe uma dívida, um número grande de famílias à espera de acessar um recurso, um projeto, um programa, uma fonte de água, sobretudo na perspectiva da captação da água de chuva, que é uma água segura, democrática, limpa, que chega gratuita para todos. Nós precisamos retomar esses programas. É uma pena que tenham sido interrompido programas de grande sucesso na garantia de água para todos, como até foi chamado uma época o programa Água para Todos. Então há uma dívida, um deficit estimado de mais de 300 mil famílias que espera ainda pela primeira fonte de água segura. Existem estimativas de 400 a 600 mil famílias que esperam por uma segunda fonte para avançar para além da segurança da água de beber, avançar para a segurança da água de produção e assim ter alimentos e também contribuir para o que é autonomia financeira, com comercialização de excedentes.

Viva Bem no Sertão - Toda essa situação em que o povo vive em meio a um contexto onde existem as mudanças climáticas...

André Rocha - o que se tem de novo talvez seja esse contexto das mudanças climáticas, seguindo o tema da ONU, que traz este tema: Água e Mudanças Climáticas, considerando que, com as mudanças climáticas, as disputas, a dificuldade para garantir o acesso à água tende a aumentar, sobretudo no Semiárido, nas zonas onde a distribuição das chuvas já é irregular, onde a água já é difícil ou mesmo onde há muita água, mas a qualidade é comprometida.

Com as mudanças climáticas, onde a chuva se torna mais irregular, enchentes mais frequentes, mas também períodos de seca mais longos, com o calor, com o aumento da temperatura a evaporação também aumenta, então as fontes que não têm tampa, que são desprovidas de tampa, secam são mais rápido por conta dessa evaporação que cresce.

Uma das causas das mudanças climáticas, que não são só as queimadas de mata e de petróleo, mas também uso abusivo de agrotóxicos e outros contaminantes, vem comprometendo a qualidade da água e o equilíbrio, então é o momento de refletirmos sobre isso.


Viva Bem no Sertão - Dá para falar sobre fim desse ciclo de seca mais recente aqui no Semiárido?

André Rocha - Há uma perspectiva de que a gente esteja se aproximando, no Semiárido brasileiro, de uma passagem por essa última temporada, mas não podemos assegurar ainda, no que diz respeito ao volume, à somatória de água, mas alguns indicativos: esse ano sem El Niño, sem La Niña e que as chuvas possam ocorrer dentro do que se chama normal, o que seria um alcance médio de 450 a 500 mm [números próximos da média histórica para Juazeiro -BA].

O Lago de Sobradinho está chegando a 60% do volume [de armazenamento] depois de seis anos sem alcançar essa média. Como estamos em março, podemos contar chuva até abril, é possível que estejamos nos aproximando do fim desse ciclo de secas consecutivas.

Viva Bem no Sertão - Às vezes as pessoas comentam com gente e às vezes para nós mesmos fica a impressão de que está chovendo muito, em volume. Mas a chuva está distribuída em pequenas quantidades.

André Rocha - Sim. Como característica natural do semiárido, que é a irregularidade, há lugares específicos em que houve por exemplo 180 mm em pouco mais de 24 horas e causou enchentes, estragos, essa semana passada, por exemplo, na região de Quiterianópolis, no Ceará. Mas existem outros lugares onde a chuva desde dezembro se distribuiu num volume até maior que esse, com espaçamento mais regular e causou oferta de água com o mesmo volume, num tempo maior, que não causou enchente, ou seja, é também natural essa irregularidade, chover mais num menor tempo, chover mais num tempo maior de distribuição, ter enchente ou não ter, um lugar ter, o outro não. Mas, no geral, ainda estamos um pouco longe de alcançar uma média para o Semiárido de 500 ou 600 mm. A maioria dos lugares não passou ainda dos 300, 350 [mm], porém já com uma expectativa de que este ano não tenha muitos lugares com volume de chuva abaixo da média no Semiárido.

Viva Bem no Sertão - Durante esse mês o que o Irpaa pautou nas discussões com as comunidades, com as universidades, com estudiosos?

André Rocha - No mês da água nos estamos pautando a necessidade de garantia da luta por termos água como um bem natural, termos o acesso à água em quantidade e regularidade, como serviço público, a ser garantido pelo Estado. Estamos discutindo a necessidade de valorizar a captação de água de chuva e desbloquear esse grande potencial que temos no Semiárido e no Brasil, como um todo, e que está adormecido e precisa ser desbloqueado, a valorização dessa ideia da captação de água de chuva e discutir com as pessoas as mudanças climáticas que afetam o ciclo da água, que afetam a disponibilidade de água e afeta a forma de como as pessoas precisarão lidar com o estoque, com manejo, com o uso e até fazer o reuso das águas como estratégia de otimizar o uso da água disponível e pressionar menos as fontes existentes e assim trabalhar na perspectiva não só da Convivência com o Semiárido, onde a água é um bem de valor nessa proposta, mas também de mitigação aos efeitos e de adaptação a esse processo de mudanças climáticas, que se conseguirmos reverter ou frear não será em poucas décadas.

Então, nesta temporada vamos discutir a importância da água para a vida e para o equilíbrio de todo o planeta.

 


*Entrevista concedida em 19/03/2020. 


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