Semiárido Produtivo II é apresentado a grupos da agricultura familiar em Sergipe e Alagoas

Agricultoras e agricultores familiares de Alagoas e Sergipe deram, nesta semana, os primeiros passos na construção das ações do Projeto Semiárido Produtivo II em seus territórios. Os encontros estaduais reuniram representantes dos empreendimentos contemplados para promover a integração entre os grupos, apresentar os objetivos e as etapas do projeto e planejar as atividades iniciais em campo.

Em Alagoas, a atividade foi realizada no dia 1º de setembro, no Sítio Jacaré, sede da Associação de Agricultores Alternativos (Aagra), em Igaci. Em Sergipe, o encontro aconteceu no dia 3 de setembro, no Campus Poço Redondo do Instituto Federal de Sergipe (IFS). A programação deu continuidade à agenda iniciada nos dias 25 e 26 de agosto, quando empreendimentos da agricultura familiar da Bahia se reuniram em Juazeiro para conhecer o projeto e planejar as primeiras ações.

Com vigência de três anos, iniciada em julho de 2026, o Semiárido Produtivo II busca fortalecer a capacidade de produção de alimentos dos empreendimentos coletivos da agricultura familiar e das unidades produtivas. As ações estão voltadas à ampliação da oferta de alimentos saudáveis, à promoção da agroecologia, à equidade de gênero, à sustentabilidade ambiental e social e à geração de renda nas regiões semiáridas de Alagoas, Sergipe e Bahia.

A diversidade presente nos dois encontros revela a amplitude do trabalho que será realizado. Os grupos atuam com ovos, flocão de milho, queijos e iogurtes de leite caprino, mel, doces, sequilhos, bolos, geleias, bebidas e beneficiamento de frutas da Caatinga. O projeto também prevê investimentos na horticultura, na certificação orgânica participativa, na conservação de sementes crioulas e no fortalecimento de cooperativas e associações.

Em Alagoas, conhecimentos compartilhados fortalecem a produção

O encontro alagoano reuniu representantes de seis empreendimentos. Entre eles estão a Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa do Estado de Alagoas (Coopcam), com atuação em Palmeira dos Índios e produção de derivados de frutas; a Associação dos Agricultores Familiares e Produtores de Leite e Derivados São José do Sítio Cachoeira, em Cacimbinhas, que trabalha com queijo artesanal, bolos caseiros e mel; a Associação de Desenvolvimento Sustentável dos Agricultores Familiares de Major Isidoro (Adesafami), dedicada à produção agroecológica de feijão, milho e outros alimentos, além do armazenamento e da preservação de sementes crioulas; e a Aagra, em Igaci, que atua com derivados de leite caprino e bovino.

As experiências compartilhadas durante o encontro mostraram que a produção também se sustenta na curiosidade, na experimentação e na circulação de conhecimentos entre as famílias. Guardiã de sementes e moradora do Sítio Lagoa da Areia dos Marianos, em Palmeira dos Índios, Givanilda Gomes de Oliveira produz oito itens da linha Cajuando, entre geleias, cajuína, vinho, frutas cristalizadas e doces. Ao aprender uma técnica, ela procura desenvolvê-la junto ao grupo.

“O que eu não sei, eu aprendo”, resume Givanilda. A agricultora também mantém sementes crioulas transmitidas entre gerações e contribui para que esse patrimônio continue circulando entre outras famílias. “Sou guardiã de sementes. Eu tenho as favas do meu avô, de 150 anos, o milho sabugo fino, o feijão. Várias sementes eu doo. Até da nossa roça coletiva, o primeiro feijão-latão foi o que eu doei; agora eles já têm a própria semente. Eu sou da caminhada”, conta.

Com o novo ciclo do projeto, Givanilda espera adequar a estrutura de criação de caprinos e melhorar as condições de retirada e aproveitamento do leite. A expectativa reúne continuidade e ampliação de uma trajetória produtiva que já envolve criação animal, beneficiamento de frutas e conservação da agrobiodiversidade.

Para Salete Barbosa, integrante da diretoria da Coopcam, a nova etapa chega em um momento importante para os empreendimentos do estado. “Esse projeto maravilhoso, que esteve na fase 1 e agora chega à fase 2, vem com várias inovações. Os grupos atendidos serão maiores, as cooperativas também. Nosso território estava precisando, de fato, desse projeto. Ele chegou na hora certa”, afirma.

Em Sergipe, expectativa de ampliar mercados e gerar renda

No encontro sergipano, cerca de 31 integrantes de famílias camponesas conheceram as frentes de apoio previstas para comunidades e organizações de diferentes municípios. Em Canindé de São Francisco, a comunidade Califórnia, no Assentamento Canadá, receberá investimentos voltados à produção familiar. Em Porto da Folha, a Associação dos Produtores Rurais da Comunidade Jureminha será apoiada na reforma de uma casa de sementes crioulas e na aquisição de equipamentos, máquinas e itens de proteção para o trabalho.

Também participam das ações a Associação da Comunidade do Retiro, em Monte Alegre; as comunidades São Miguel e Santa Cruz, em Propriá; e a Associação dos Pequenos Agricultores do Estado de Sergipe (Apaese), em Poço Redondo. A perspectiva é aprimorar processos produtivos já desenvolvidos pelas famílias, fortalecer a organização coletiva e criar condições para que os alimentos cheguem a novos espaços de comercialização.

Franklin Cordeiro, agrônomo, agricultor do grupo produtivo do Retiro e associado à Apaese, relaciona os investimentos à possibilidade de permanência das novas gerações no campo. “Esse momento gera muita esperança na nossa comunidade, porque a comunidade tem a produção familiar, mas ainda não consegue acessar o mercado institucional. A gente espera que as famílias consigam desenvolver as práticas e que mulheres e jovens possam ter uma nova fonte de renda e permanecer no campo”, destaca.

Na comunidade Santa Cruz, em Propriá, a agricultora Giselda dos Santos espera ampliar o trabalho que já realiza. “Esse programa vai ser muito importante porque vai nos ajudar a avançar mais na minha produção, melhorar e também aumentar em termos de quantidade. Estou muito grata por participar e muito feliz”, relata.

Produção agroecológica, organização e acesso a mercados

As ações do Semiárido Produtivo II estão organizadas em três frentes complementares. A primeira envolve o fortalecimento dos sistemas agroecológicos, com práticas sustentáveis, conservação dos recursos naturais e produção em harmonia com a Caatinga. A segunda está ligada à gestão econômica dos empreendimentos e à organização das famílias e comunidades produtoras. A terceira concentra-se na agregação de valor, com qualificação dos produtos locais para ampliar a competitividade, a comercialização e a renda.

Ao longo dos três anos, espera-se aprimorar os empreendimentos coletivos, incorporar novas técnicas, elevar a produção e ampliar o acesso a diferentes canais de venda. Entre os resultados pretendidos estão a participação de mais grupos no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o acesso ao crédito, o fortalecimento das associações, a constituição de novas cooperativas e a inclusão de mais agricultores e agricultoras no Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos.

O projeto prevê alcançar mais de 800 agricultores e agricultoras familiares. A estimativa é que as mulheres representem 70% do público, os homens, 30%, e que os jovens correspondam a 11% do total de participantes. Sete comunidades tradicionais também receberão incentivos, beneficiando mais de 150 pessoas. Ao todo, as ações envolvem uma cooperativa central, sete cooperativas e 26 associações comunitárias.

Execução, articulação e parcerias

Em Sergipe, o encontro contou com a participação de representantes do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), do Instituto Federal de Sergipe e da Embrapa Semiárido, além de outras organizações que atuam junto à agricultura familiar. Para Maria de Jesus, assessora produtiva do Irpaa no estado e integrante do MPA, o lançamento permitiu discutir a organização da produção e as perspectivas das famílias. “Foi um dia muito produtivo, que trabalhou com as perspectivas de organizar a produção desses camponeses — o cuscuz, o arroz, os ovos — e também com os sonhos coletivos que esse povo busca construir dentro do território”, avalia.

Em Alagoas, o assessor produtivo do Irpaa Wandérson Andrade destaca que o encontro aproximou os empreendimentos e ajudou a pactuar as próximas agendas. “Foi um momento de apresentação, de diálogo com os empreendimentos e de agendas futuras para as ações do projeto no nosso estado. Foi um espaço de construção, de parceria e de troca de experiências”, afirma.

Representantes das instituições parceiras acompanharam os encontros de forma remota. Raquel Zanon, do Departamento de Inclusão Produtiva e Educação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ressaltou a expectativa de que os investimentos melhorem as condições de trabalho e de vida das famílias. “Esperamos que a gente consiga, com essa iniciativa, contribuir para melhorar as condições da estrutura das cooperativas e das famílias que fazem parte desses coletivos, para que consigam ter uma estrutura melhor, mais agregação de valor, mais renda e viver melhor no território”, declarou.

Wellington Carvalho, gerente de projetos sociais e engenheiro-agrônomo da Petrobras, destacou o alcance territorial e o acompanhamento das ações. “A gente espera que esse investimento dê frutos e melhore, de fato, a qualidade de vida e a produção de alimentos saudáveis em todo o Semiárido, em especial em Alagoas”, afirmou.

O Projeto Semiárido Produtivo II é executado pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa) e conta com a parceria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Petrobras.

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Texto e fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa

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