Seminário reúne cerca de 250 pessoas em Juazeiro e amplia articulação em defesa dos territórios tradicionais

Bandeiras, cocares, sementes, artesanatos e produtos das comunidades compuseram o cenário do Seminário em Defesa dos Territórios Tradicionais, realizado nesta terça-feira (25), no auditório do Departamento de Tecnologia e Ciências Sociais da Universidade do Estado da Bahia (DTCS/UNEB), em Juazeiro.

Aproximadamente 250 pessoas participaram da atividade, entre agricultores e agricultoras, pesquisadores, lideranças comunitárias, estudantes e representantes de movimentos e organizações sociais.

A programação começou com uma mística, acompanhada pela entrada coletiva das representações dos territórios. No auditório, a faixa “Nada sobre nós sem nós!” sintetizou um princípio que atravessou o encontro: as comunidades precisam participar diretamente das decisões sobre os lugares onde vivem, trabalham e mantêm suas formas de organização, seus conhecimentos e suas práticas culturais.

Durante o dia, foram apresentados um panorama dos conflitos socioambientais no Sertão do São Francisco, relatos das comunidades, dados nacionais sobre a violência no campo e as perspectivas da Campanha Permanente em Defesa dos Territórios Tradicionais. As intervenções no plenário apontaram problemas recorrentes em diferentes municípios: mineração, desmatamento, poluição das águas, instalação de grandes empreendimentos de energia, insegurança fundiária e desrespeito ao direito de consulta prévia das populações afetadas.

Para Josemar Feitosa, agricultor da comunidade Barreiro do Espinheiro, em Campo Alegre de Lourdes, o seminário permitiu reconhecer desafios comuns e compartilhar formas de resistência. “Cada um trouxe suas experiências de enfrentamento e da caminhada. Aprendemos muito uns com os outros”, afirmou.

Josemar chamou atenção para os efeitos sociais e ambientais da mineração nas comunidades. “Quando vem para explorar, não explora só o minério; explora o ser humano também”, disse, ao citar a poeira, os problemas de saúde e outras consequências que permanecem nos territórios.

A cacique Djanira Ferreira, da Aldeia Altamira, do povo Atikum, em Curaçá, destacou a importância do encontro entre diferentes povos e comunidades e apontou o centro das disputas enfrentadas por eles. “O principal conflito é a terra. É pela terra”, resumiu. Ela também citou ameaças relacionadas à energia eólica, ao desmatamento e à exploração mineral, além da necessidade de levar à aldeia os conhecimentos compartilhados no seminário.

Na comunidade Vargem Comprida, território tradicional de Fundo de Pasto em Curaçá, a regularização fundiária e o cumprimento da consulta prévia, livre e informada estão entre as principais reivindicações. Agente comunitário de saúde, Ayrton Gonçalves defendeu que qualquer empreendimento apresente antecipadamente seus projetos, impactos e possíveis benefícios à população atingida.

“As empresas, antes de qualquer empreendimento, têm que sentar com a comunidade e dizer o que será feito e quais são os benefícios, não somente benefícios maquiados de curto prazo. O impacto negativo fica a longo prazo”, afirmou.

As falas de pescadoras presentes ampliaram a discussão sobre o significado dos territórios. Em um dos depoimentos registrados durante o encontro, Maria Alice, de Juazeiro, ressaltou que a vida das comunidades pesqueiras depende da proteção do Rio São Francisco contra a poluição e os agrotóxicos. “Território não é só terra; é terra e água. Sem território pesqueiro, não existe pesca artesanal”, declarou. Para ela, pescadores e pescadoras são guardiões das águas e do rio.

Os relatos também relacionaram as ameaças atuais a processos anteriores de perda territorial. Participantes recordaram os deslocamentos provocados pela construção da Barragem de Sobradinho e citaram novos projetos de mineração e de geração de energia solar e eólica, além das restrições vividas por comunidades no entorno do Parque Nacional do Boqueirão da Onça, em Sento-Sé.

Dados expõem a permanência da violência no campo

A programação incluiu o lançamento, em Juazeiro, do Caderno Conflitos no Campo Brasil 2025, publicação da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O levantamento apontou uma redução de 28% nos registros de conflitos no campo em relação a 2024, com 1.593 ocorrências, diante das 2.207 do ano anterior.

As violências relacionadas à terra concentraram 75% dos registros, com 1.186 ocorrências. Os números apresentados ajudaram a situar as denúncias das comunidades do Sertão do São Francisco em um cenário nacional no qual a disputa por terra, água e condições dignas de trabalho continua produzindo ameaças, expulsões e mortes.

Marina Rocha, da CPT, explicou que a entidade registra os conflitos no campo desde a sua fundação e publica essas informações desde 1983. “Essa publicação tem por objetivo devolver para a sociedade o que está acontecendo, de fato, no campo”, afirmou. Segundo ela, o Caderno se tornou uma das principais formas de denunciar e revelar a realidade do campo brasileiro, além de subsidiar pesquisas acadêmicas e a formulação de políticas públicas.

Produzido pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da CPT, o Caderno chega à 40ª edição como instrumento de memória, denúncia e acompanhamento dos conflitos no campo. Para Marina, o trabalho da entidade envolve acompanhar as comunidades, apoiar suas resistências e registrar as violências sofridas por elas, com o propósito de contribuir para a transformação desse cenário.

“A gente espera que, um dia, não seja mais necessário registrar conflito no campo, assassinato no campo, sofrimento do povo no campo. A gente vai continuar fazendo isso enquanto for necessário”, declarou. Marina também destacou a importância de registrar e anunciar as experiências, as lutas e as formas de resistência construídas pelas próprias comunidades.

Articulação permanente

Na parte da tarde, a plenária retomou as ameaças às comunidades e as ações necessárias para fortalecer a Campanha Permanente em Defesa dos Territórios Tradicionais. A continuidade da comunicação entre os territórios, o apoio mútuo diante das violações e a ampliação das denúncias foram apontados como tarefas indispensáveis.

“A luta nunca cessa, nunca diminui”, afirmou Ayrton Gonçalves. Segundo ele, o caráter permanente da articulação é necessário porque um conflito pode ser enfrentado em uma comunidade enquanto outra, no mesmo período, passa a sofrer novas ameaças.

A Campanha Permanente em Defesa dos Territórios Tradicionais foi lançada oficialmente em outubro de 2025, durante o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, também realizado em Juazeiro-BA. De acordo com Marina Rocha, a mobilização surgiu diante do agravamento das violências contra camponeses, camponesas, povos e comunidades tradicionais da região, especialmente com a chegada de empreendimentos que desconsideram as populações e suas formas de vida.

“Essa campanha quer trazer a denúncia do que está acontecendo, mas também fortalecer as comunidades e suas organizações, criar um mutirão para apoiar as comunidades na defesa da terra e dos seus territórios”, explicou.

O seminário foi mais uma das inúmeras atividades de mobilização da Campanha e reuniu representações do IRPAA, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), da CPT, da UNEB, UNIVASF e de outras organizações e movimentos, além de povos e comunidades tradicionais do território Sertão do São Francisco.

Para Marina, a presença conjunta das comunidades, organizações, universidades, estudantes, professores e lideranças fez do encontro um marco na construção dessa articulação. “Eu saio daqui muito esperançosa, porque acredito que, com o mutirão, a união de todas as organizações e de todo o povo, a gente possa mudar o cenário dessa região, que está muito difícil”, concluiu.

Ao final do encontro, ficou reafirmado, através de uma carta política, que a defesa dos territórios envolve terra, água, trabalho, cultura, fé, memória e o direito de decidir sobre o próprio futuro. A participação direta das comunidades e a articulação entre quem vive, pesquisa, assessora e luta nesses espaços seguirão como fundamentos da Campanha. Confira o documento:

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Texto e fotos: Assessoria de Comunicação
Campanha Permanente em Defesa dos Territórios Tradicion

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