O cuidado com a vida, com os territórios e com a natureza começa pelo cuidado consigo mesma. Foi a partir dessa reflexão que as participantes do projeto Mulheres Rurais pela Justiça Climática vivenciaram uma oficina sobre cuidado, saúde mental e autocuidado na última segunda-feira (8), na comunidade Andorinhas, em Sento Sé.
A atividade trouxe para o centro do debate uma dimensão muitas vezes invisibilizada nos projetos socioambientais: a urgência de olhar para a saúde física, emocional e mental das mulheres que estão na linha de frente da defesa de suas famílias, comunidades e do meio ambiente.
O peso da crise climática sobre as mulheres
A urgência de debater o tema encontra respaldo em dados globais e locais. De acordo com relatórios da ONU Mulheres, cerca de 80% das pessoas deslocadas pelas mudanças climáticas no mundo são mulheres. No Semiárido brasileiro, a desertificação e a escassez hídrica sobrecarregam diretamente a rotina feminina, já que historicamente são elas as responsáveis pela garantia da água, pela segurança alimentar da família e pela manutenção dos quintais produtivos.
Conduzindo a oficina, a terapeuta integrativa e educadora popular, Aldenisse Souza, destacou que discutir autocuidado em um projeto voltado para a justiça climática é reconhecer que as mulheres são diretamente impactadas pelas crises ambientais e, ao mesmo tempo, desempenham um papel fundamental na proteção da vida.
“Um projeto que decide discutir as questões do autocuidado com mulheres e justiça climática é um projeto que já se coloca atento às necessidades do nosso tempo. Como as mulheres são as principais guardiãs da natureza e da comunidade, seja porque isso lhes foi imposto, seja por conta de suas sensibilidades, elas também acabam sendo as mais afetadas em sua saúde física, mental e emocional”, explica a terapeuta.




Aldenisse ressalta que essa vulnerabilidade é ainda mais profunda quando o recorte recai sobre o interior: “E quando a gente fala de mulheres rurais, são também as que mais estão desassistidas dessa atenção. Porque se na cidade isso ainda é um tabu e há uma distância de acesso, no campo é mais ainda. Imagina mulheres rurais sentarem para intercalar o que é que o seu autocuidado tem a ver com o cuidado do meio ambiente, da ‘casa comum’. Então, permitir que as mulheres falem de si, olhem para a própria saúde e percebam a saúde das outras é tirar um tempo para falar sobre a vida.”
Para a terapeuta, a saúde humana e a saúde ambiental estão intrinsecamente conectadas. “Se o planeta está doente, as pessoas estão doentes. Se as pessoas estão doentes, o planeta também está. Precisamos integrar o cuidado com o ambiente e o cuidado com quem vive nele”, pontua.
Vozes do Território: do pessoal ao coletivo
A transversalidade do tema foi um dos pontos elogiados pelas participantes nos diferentes municípios onde o debate aconteceu. Em Sento Sé, Jaciara Lasdilau, integrante da Rede Mulher, defendeu que o autocuidado saia da esfera privada e passe a ocupar a pauta dos processos formativos.
“É um tema que perpassa as questões climáticas, a agroecologia e tantas outras áreas”, pontuou Jaciara. “Precisamos discutir isso nos nossos espaços e reuniões. O autocuidado fortalece o autoconhecimento, a autoestima e a relação que temos com nós mesmas, com as outras e com o ambiente onde vivemos.”
Ela lembrou, ainda, que a falta de oportunidades históricas faz com que muitas mulheres do campo sequer tenham tempo para refletir sobre o próprio corpo e suas necessidades, tornando essas discussões ainda mais urgentes.
A indígena Jusicleide da Silva Santos, da Aldeia Atikum de Oliveira, também destacou a relevância da temática, especialmente para as mulheres que historicamente assumem a responsabilidade de zelar pelo coletivo. “Se nós não cuidarmos de nós mesmas, ninguém cuida. Somos formadas para cuidar. Então precisamos tirar um tempo para nós, para colocar em prática o que aprendemos e seguir cuidando da nossa comunidade.”
Ao relacionar o autocuidado com a proteção da natureza, Jusicleide ressaltou o papel crucial dos povos originários na defesa dos territórios: “Tem o Ibama, tem o Inema, têm os órgãos. Mas esses órgãos só vão lá quando há um problema. E nós não. Nós somos o próprio órgão, porque vistoriamos todo o nosso território e cuidamos dele todos os dias. Vivemos dentro do território e acompanhamos tudo o que acontece. Para cuidar da natureza, também precisamos cuidar da nossa saúde mental, emocional e física. O que aprendemos aqui, levamos para a comunidade.”
Cuidando delas para cuidar do mundo
A atividade reforçou que a justiça climática passa, necessariamente, pelo reconhecimento e pela sustentabilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres. Diante de mudanças climáticas cada vez mais intensas, fortalecer a saúde, a autoestima e as redes de apoio locais é também blindar a capacidade das comunidades de proteger seus territórios e construir alternativas sustentáveis para o futuro.


Aldenisse finaliza apontando caminhos para que essa transformação aconteça na prática, unindo afeto e estrutura.“É essencial pensar na vida das mulheres a partir do seu dia a dia: como temos sentido nossas emoções? A quem temos recorrido? As redes de apoio e de cuidado, sejam elas as políticas públicas de saúde ou as redes de afeto da comunidade, precisam ser fortalecidas. Vamos integrar a discussão de uma saúde que aborda o ambiente e as pessoas.”
Mulheres Rurais pela Justiça Climática é um projeto realizado pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), em parceria com a Rede Mulher do Território Sertão do São Francisco, com apoio da ONU Mulheres, nos municípios de Sento Sé, Curaçá e Juazeiro.
Texto: Gisele Ramos – Rede Mulher Sertão do São Francisco
Edição: Lorena Simas – Eixo Educação e Comunicação do Irpaa





