Em meio ao avanço das mudanças climáticas no Semiárido brasileiro, mulheres de comunidades tradicionais têm assumido um papel fundamental na defesa da Caatinga. Como guardiãs da biodiversidade, elas articulam saberes ancestrais, práticas agroecológicas e organização coletiva.
É nesse contexto que teve início, em fevereiro, o projeto “Mulheres Rurais pela Justiça Climática”, realizado pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), em parceria com a Rede Mulher do Território Sertão do São Francisco, com apoio da ONU Mulheres. A iniciativa atua nas comunidades tradicionais de Fundo de Pasto e aldeia indígena, nos municípios de Juazeiro, Curaçá e Sento Sé, com foco no fortalecimento do protagonismo feminino diante dos impactos da emergência climática.


De acordo com Lorena Simas, coordenadora do projeto e integrante do Irpaa, a proposta dialoga diretamente com os desafios atuais dos territórios, discutindo temas como racismo ambiental, justiça climática, gestão de projetos e comunicação. “Um tema fundamental para todas essas discussões e para o empoderamento das mulheres, olhando muito para o foco das mulheres rurais”, afirma.
A proposta integra formação política, técnica e social, com o objetivo de formar 75 mulheres como lideranças e multiplicadoras em seus territórios. A metodologia adotada valoriza a troca de saberes e a construção coletiva, conectando o conhecimento técnico às experiências vividas pelas mulheres.
Para Cristiane Ribeiro, da comunidade tradicional Fundo de Pasto Esfomeado, em Curaçá, o processo formativo tem contribuído para ampliar a compreensão sobre a justiça climática. O projeto possibilita entender “quais impactos isso gera na vida das mulheres, nas atividades econômicas dentro da comunidade e no cuidado com o bioma Caatinga”, explica. Ela também chama atenção para as causas estruturais da crise: “Há quem faça um estrago maior no ambiente, na descaracterização desses ambientes tradicionais e isso vai estar gerando graves consequências no clima, na produção, na criação de animais e na vida dessas pessoas que vivem ali tradicionalmente”, conclui Cristiane.


Um dos pilares do projeto é o reconhecimento do papel das comunidades tradicionais na conservação e restauração do bioma Caatinga. Nos territórios de Fundo de Pasto e nas aldeias indígenas, práticas ancestrais de cuidado com a terra têm garantido a preservação ambiental ao longo das gerações. Na Aldeia Altamira, em Curaçá, a cacique Djanira Ferreira, do povo Atikum, destaca a relação de respeito com a natureza. “A gente planta, cuida e não deixa de preservar. Onde puder, estamos plantando. Esse projeto vai ajudar muito, na aldeia, na caatinga e no mundo”, afirma.
Esses modos de vida são fundamentais no enfrentamento à emergência climática. A escassez de chuvas, o aumento das temperaturas e a degradação ambiental impactam diretamente a produção agrícola, a criação de animais e a qualidade de vida das comunidades.Para as mulheres, esses impactos não chegam de forma isolada, eles se entrelaçam com desigualdades históricas de gênero e também com o racismo.
A partir da formação, essa compreensão tem se fortalecido. “Foi muito importante para conhecer os poderes da mulher, conquistar seu espaço e lutar também em nome da comunidade, conhecer os nossos direitos e ir à frente sobre as mudanças climáticas. Apesar da nossa cor, nós temos todos os direitos de viver, sobreviver e lutar”, afirma Elzânia de Souza, da comunidade Andorinhas, em Sento Sé. Ela também destaca como a crise ambiental atravessa o corpo e a saúde das mulheres. “Precisamos da água, de um clima melhor, sem contaminação, sem poluição. Esses problemas também prejudicam a gente no nosso corpo”, complementa, evidenciando a relação direta entre meio ambiente e o bem viver nas comunidades.


Rede, resistência e incidência
A articulação em rede é um dos pilares da iniciativa. As comunidades atendidas pelo projeto já têm, em sua maioria, mulheres que integram a Rede Mulher do Sertão do São Francisco, uma articulação que há anos atua nos territórios fortalecendo o protagonismo feminino, a defesa de direitos e a Convivência com o Semiárido. Nesse sentido, o projeto se soma a uma trajetória já construída, fortalecendo processos organizativos, ampliando a mobilização e qualificando a incidência política das mulheres na construção e no acesso às políticas públicas.
Para Irmã Neide, da comunidade Massaroca, em Juazeiro, a iniciativa fortalece uma caminhada que já vem sendo construída coletivamente. “Eu percebo que veio trazer algo para somar com toda essa trajetória de conhecimentos que as mulheres vão tendo em suas vidas. E assim, nesse debate conjunto, nessa troca de experiências, vão surgindo novas ideias, uma consciência maior para juntas buscarmos melhores caminhos, construindo uma política ambiental que favoreça a todos e todas”, destaca.
Ao fortalecer essas redes de cuidado e resistência, o projeto reafirma que a preservação da Caatinga e o enfrentamento à crise climática, passam, necessariamente, pelas mãos das mulheres rurais.
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Texto: Gisele Ramos – Rede Mulher Sertão do São Francisco
Edição: Lorena Simas – Eixo Educação e Comunicação do Irpaa










