Em meio à emergência climática global e à expansão acelerada de grandes projetos agrícolas, energéticos e minerários — que intensificam a degradação, a desertificação e as violações aos direitos de povos e comunidades tradicionais —, o bioma Caatinga, único no mundo e exclusivamente brasileiro, demonstra resiliência. Apesar das sérias ameaças em diversas regiões do Brasil, ele se destaca como peça fundamental para o equilíbrio climático do planeta.
Estudos realizados pelo Instituto Nacional do Semiárido (INSA) e pelo Observatório da Caatinga e Desertificação (OCA) destacam o papel da Caatinga no sequestro de carbono. Em áreas mais preservadas e úmidas do bioma, a vegetação consegue capturar até cerca de 5 a 7 toneladas de CO₂ por hectare ao ano, armazenando o gás em folhas, troncos, raízes e, sobretudo, no solo — onde grande parte do carbono fica retido.
Mesmo nas regiões onde os períodos de estiagem são maiores, o bioma mantém um sequestro expressivo, entre 1,5 e 3 toneladas de CO₂ por hectare anualmente. Essa eficiência posiciona a Caatinga como um dos ecossistemas brasileiros mais eficazes na retenção de carbono, superando, em termos de eficiência relativa, biomas como a Amazônia e a Mata Atlântica em certos contextos, e consolidando-o como um importante sumidouro de carbono natural — capaz de remover e estocar mais CO₂ do que emite.
Caatinga em pé no Semiárido Baiano
É nesse contexto que avança o projeto Caatinga em Pé – Recaatingamento em áreas de clima árido do Brasil, uma iniciativa do Irpaa que integra ações de cuidado com o território e reforço da Convivência com o Semiárido.
A proposta está em execução em nove comunidades tradicionais de quatro municípios no norte da Bahia: Abaré, Curaçá, Chorrochó e Macururé. Esses territórios, compostos por aldeias indígenas e comunidades de fundo de pasto, mantêm historicamente modos de vida harmoniosos com o Semiárido, mas convivem com desafios como grilagem de terras, avanço de monoculturas e empreendimentos de grande escala.
As ações incluem: o isolamento de áreas degradadas para regeneração natural assistida; a recuperação e conservação do solo, com técnicas como curvas de nível; a coleta e beneficiamento de sementes nativas; a produção de mudas em viveiros comunitários e; o plantio de espécies endêmicas da Caatinga.
Essas práticas favorecem a recomposição da vegetação nativa, a infiltração e conservação da água, o retorno da biodiversidade animal e o aumento do sequestro de carbono, elevando a capacidade de adaptação dos territórios às mudanças climáticas.
As comunidades envolvidas são: Aldeamento Tuxi (Abaré); Pau Ferro, Santana, Frade, Tamboril e Sítio de Alexandre (Curaçá); Poço do Poldrinho e Poço Comprido (Chorrochó); e Santo Antônio (Macururé).
O projeto contempla a restauração direta de 300 hectares em quatro comunidades adicionais, além da implantação de 2 hectares de sistemas agroflorestais em unidades familiares, o que contribui para a soberania alimentar e a diversificação da renda.
Respeitando os princípios da Convivência com o Semiárido, a iniciativa prioriza a participação ativa das comunidades. Entre as atividades em curso destacam-se: elaboração coletiva de planos de manejo sustentável; capacitações em agroecologia e adaptação ao Semiárido; intercâmbios e oficinas com foco em jovens e mulheres; produção de nove cartografias sociais por meio de mapeamento participativo; construção de nove protocolos de consulta prévia, livre e informada; e ações de incidência política para que o Recaatingamento se consolide como política pública.
Cerca de 400 pessoas são beneficiadas diretamente, enquanto aproximadamente mil alcançadas por seminários, oficinas e materiais educativos. Além disso, 30 famílias receberão tecnologias sociais como cisternas, biodigestores e sistemas de reúso de água, fortalecendo a autonomia e reduzindo vulnerabilidades.
O projeto inclui ainda a sistematização de três estudos sobre práticas de recuperação e conservação da Caatinga, articulando conhecimento científico e saberes do território. A execução conta com parcerias estratégicas: Embrapa Semiárido; Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), por meio do Laboratório de Análise e Desenvolvimento de Indicadores para a Sustentabilidade (LADIS); Universidade Estadual de Feira de Santana por meio do Programa de Pós-graduação em Modelagem em Ciências da Terra e do Ambiente (PPGM); e Universidade do Estado da Bahia (UNEB), por meio do Centro de Agroecologia, Energias Renováveis e Desenvolvimento Sustentável (Caerdes).
Essas colaborações reforçam a base técnica e científica da iniciativa e ampliam as possibilidades de replicação da experiência em outras regiões do Semiárido.
O projeto é realizado pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), com financiamento do Edital Caatinga Viva – Floresta Viva, uma iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com apoio do Banco do Nordeste do Brasil e gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio).
O que é o Recaatingamento?
O Recaatingamento é uma metodologia de Convivência com o Semiárido que promove os meios necessários para a recuperação de áreas degradadas e conservação da biodiversidade da Caatinga, com a participação ativa das comunidades por meio de ações de educação ambiental contextualizada para o fortalecimento do valor da Caatinga em Pé. Como componente da metodologia tem-se a integração de ações ambientais, sociais e produtivas para mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e ampliação da resiliência dos povos da Caatinga.
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Texto: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa





