Tenda da saúde do 13º CBA uniu cuidados ancestrais e educação em agroecologia

A Tenda da Saúde, Cuidado e Cura do 13º  Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA) foi um espaço de acolhimento, cura e afirmação política dos saberes ancestrais para congressistas e trabalhadores do evento. Realizado pela primeira vez no Semiárido Brasileiro (SAB), o CBA reforçou a saúde integral como prática de cura e resistência, promovendo o diálogo entre os saberes para oferecer opções de tratamento naturais, orgânicas e integradas. 

De acordo com Morgana Maria, coordenadora do espaço, durante os quatro dias de congresso foram realizados atendimentos individuais, rodas de conversa e oficinas com participação de cerca de 600 consultas e média de 50 participantes por atividade coletiva – totalizando 150 pessoas nas dinâmicas de diálogo. “Todas as ações da tenda foram muito bem frequentadas. Houve muita participação. A tenda estava sempre cheia, mesmo as pessoas frequentando as programações acadêmicas”, relata Morgana, destacando a adesão do público.

Homenageando  Mãe Filinha e Mãe Ciana – curandeiras e mulheres de terreiro do Semiárido –, o espaço evocou o “materno abraço” e a mística do cuidado. “A escolha em homenagear essas duas mulheres curandeiras e mulheres de terreiro, vem como uma forma de pedir uma benção para quem já estava nesse território antes de nós. Entendemos que elas representam o cuidado, o materno abraço para aqueles e aquelas que necessitam. A tenda possui essa energia, essa mística de uma grande mãe”, afirma Morgana.

Mãe Filinha de Oxum (Maria Jovelina dos Santos, 1921–2022), nascida em São Raimundo Nonato (PI), chegou a Juazeiro (BA) na década de 1940. Iniciada em 1952 como Mona Aimê Itauêmim D’Unzanbe, recebeu de Babalorixá Henrique os direitos de ialorixá pelas ordens de Ogum. Parteira, benzedeira e usuária de ervas medicinais, fez cerca de 200 filhos de santo e deixou legado de simplicidade e saber ancestral no bairro Kidé.

Mãe Ciana (Ana de Santana Dias, ou Sinhá Ana, n. 1947), nascida na fazenda Coripós, em Santa Maria da Boa Vista (PE), iniciou-se para Iemanjá em 1971 com Mãe Socorro de Ogun. Construiu barracão às margens do São Francisco, onde formou mais de 60 filhos de santo; aos 86 anos, segue ativa com apoio do neto Babakekerê Igor de Ogun no Ilê Asé Yemanjá.

Na cultura popular, as Mães de Umbigo transcendem o parto: são guardiãs do Bem Viver, unindo diversidade religiosa, práticas de cura e laços comunitários. Para a Tenda da Saúde do 13º CBA, representam o princípio da vida, a grande parteira de todas as artes, nutridora da teia do amor e do esperançar.

Em síntese, a Tenda da Saúde do 13º CBA promoveu saúde integral por meio de práticas naturais e orgânicas, incentivando a partilha entre saberes ancestrais, conhecimento acadêmico e agroecologia. Assim como a Agroecologia, reforçou a boa alimentação, a dignidade e o respeito aos direitos como pilares da saúde, defendendo uma vida justa e em harmonia com a natureza – o que, em si, também é saúde. Essa visão se traduz em convivência plena com os territórios e justiça socioambiental, honrando o legado das Mães de Umbigo e afirmando o cuidado como resistência e esperança.

O CBA foi organizado pela Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), Serviço de Assessoria a Organizações Populares (Sasop), Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Universidade do Estado da Bahia (Uneb de Juazeiro), Movimento dos Pequenos e Pequenas Agricultoras (MPA), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sertão Pernambucano (IF Sertão PE). Contou também com a contribuição de representantes de diversas organizações, redes e articulações da sociedade civil, instituições de ensino, movimentos sociais populares, poder público e comunidades tradicionais.

As ações contam também com o patrocínio do Governo do Estado da Bahia, da Secretaria de Turismo da Bahia.

_
Texto: Ana Clara De Lima Martins
Edição: Danilo Souza
Fotos: Wickshinney Loyola

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *