Foi entoando a força feminina das mulheres presentes e rememorando aquelas que vieram antes de nós, que a oficina temática sobre Cadernetas Agroecológicas do projeto de Assessoria Técnica e Extensão Rural (ATER) Bioma Caatinga, teve início. O momento formativo realizado no dia 28 de junho, no Centro de Formação Dom José Rodrigues, a roça do Irpaa, teve como objetivos refletir a participação e protagonismo das mulheres rurais nos diversos espaços de organização sócio econômica; fortalecer o acesso das mulheres às políticas públicas, como crédito rural e comercialização para mercados institucionais, visando a auto-organização, a autonomia econômica e elevação da auto estima das Mulheres Rurais.
A programação contou com uma diversidade de debates a respeito da temática, perpassando por vários aspectos, como: mística, trajetórias de lideranças femininas, antecedentes históricos da ATER mulher no Brasil e na Bahia; bem como, partilha de experiências, apresentação e experimentação através dos trabalhos em grupo sobre a caderneta. A coordenadora do projeto, executado pelo Irpaa em Juazeiro e Curaçá, Dannielle Martins, diz o quanto a caderneta é uma ferramenta simples, mas que tem um poder enorme de transformação e empoderamento na vida dessas mulheres que vai além da anotação.
“Quando uma mulher começa a anotar tudo o que ela produz, seja para o consumo da família, para venda, doação ou troca… ela começa a enxergar algo que muitas vezes passa despercebido, que é o valor do seu trabalho. É muito comum o trabalho das mulheres ser tratado como uma ajuda, e não como produção de fato. Mas, com a Caderneta, esse trabalho ganha forma, ganha número, ganha seu valor”.
Ao conseguir dimensionar o seu trabalho, as mulheres passam a ser vistas. A invisibilidade do trabalho feminino é algo estrutural na nossa sociedade, principalmente com as mulheres rurais, e a caderneta é uma ferramenta prática e pedagógica, de fácil entendimento, que tem contribuído de forma significativa na conscientização das mulheres, famílias e comunidades. Dannielle ainda chama atenção que a caderneta, “mostra que a produção não-monetária que vem do quintal, do trabalho doméstico, do roçado, do cuidado com os animais e com as sementes são, sim, trabalho. Com valor econômico, social e ambiental. E a partir do momento em que a mulher visualiza a importância do que ela faz, ela também passa a se enxergar de outra forma: como alguém que gera renda, que contribui para a economia local e que tem voz nos espaços de decisão.
O empoderamento feminino no campo tem possibilitado não só a permanência dessas mulheres, como também das famílias, perceber a autonomia e geração de renda tem sido algo crucial para garantir essa transformação social e libertação feminina. A oficina contou com a presença de 60 pessoas, das quais 50 eram mulheres agricultoras e beneficiárias do projeto que é executado no território Sertão do São Francisco, por três organizações Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc) e Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP), que também se somaram a esse momento, A partir da formação, as mulheres assessoradas aguardam a entrega das cadernetas pela Bahiater para iniciar o uso dessa ferramenta.
A agricultora Clarice da Silva, da comunidade Curral Novo, distrito de Massaroca, em Juazeiro, partilhou a sua experiência com o uso da caderneta agroecológica. Ela fez um chamamento para as mulheres presentes que irão iniciar o uso da ferramenta, evidenciou suas conquistas, principalmente dentro da sua família, “Então pra mim, isso aí foi riqueza pra mim, porque meu marido ele não dava apoio pra mim, ele nunca deu apoio, ele dizia que a mulher só bate-papo, não faz nada, só ajuda; então eu não faço isso, eu ganho muito mais dinheiro do que ele. Isso aí não tem ninguém que toma de mim não”. Clarice é uma das tantas mulheres que compreendeu a importância da ferramenta para sua vida.
A facilitadora da oficina e coordenadora da Superintendência Baiana de Assistência Técnica e Extensão Rural (Bahiater), na diretoria de inovação e sustentabilidade, Carmen Miranda, destacou de que forma a ATER e o acesso às políticas públicas podem impulsionar ainda mais a autonomia das mulheres rurais. “As mulheres com ATER, com o serviço de assistência técnica, elas acessam o CAF, que é o Cadastro da Unidade Familiar, elas acessam o crédito PRONAF mulher, elas podem acessar o PRONAF mulher, elas podem acessar o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), elas podem acessar o programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e elas vão dar conta dessa produção toda, a partir da caderneta. Então, a caderneta é um instrumento que abre caminhos…”
Nesse sentido, o acesso às políticas públicas para as mulheres, principalmente no campo, é uma luta constante e fundamental; contribui diretamente para reduzir as desigualdades de gênero. É a partir de formações como essa que as mulheres vão cada vez mais compreendendo as estruturas sociais que a sociedade se configura, como o machismo, o patriarcado, a misoginia. Não só as mulheres beneficiárias como também os técnicos e técnicas que compõem a equipe do projeto. Carmen ainda chama atenção para outra questão, a violência contra a mulher.
“Trabalhar a produção contribui sim para mulher sair do ciclo da violência, ela se liberta, ela conquista a autonomia dela, a autoestima, a partir da orientação técnica, a partir da produção, a partir do acesso às políticas e ela se sente tão empoderada, que ela acaba saindo do ciclo de violência. E não é falácia da gente, são dados, é a realidade de quem, das equipes que já trabalharam ATER aqui no nosso estado”.
Tais temáticas e discussões são fundamentais para o empoderamento feminino e paulatinamente contribui para a quebra do ciclo de violência vivenciado por muitas delas. A cada momento formativo é possível ouvir tais relatos. Ao final da formação, no momento de avaliação da oficina, dentre as falas, o conhecimento adquirido foi destaque; a agricultora Cleide Marinho da comunidade de Lagoa do Boi, distrito de Pinhões, em Juazeiro, afirma “aprendi bastante, porque sempre o aprender nunca é pouco, aprender sempre é bom, gratificante. E também nos ajuda a cada dia fazer um mundo melhor, para as futuras gerações ter um mundo melhor”. Esse sentimento de coletividade e cuidado com a natureza só evidencia o protagonismo das mulheres agricultoras nesta ação de proteção ao meio ambiente e à comunidade.
O projeto ATER Bioma Caatinga é financiado pelo Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) e da Bahiater.











