32ª Escola de Formação de Juventudes começa em Juazeiro com jovens de diferentes territórios do Semiárido

Com a proposta de ampliar a compreensão sobre a Convivência com o Semiárido e fortalecer a atuação política, social e comunitária das juventudes, teve início nesta terça-feira (7), no Centro de Formação Dom José Rodrigues, em Juazeiro-BA, a 32ª Escola de Formação de Juventudes para a Convivência com o Semiárido. Realizada pelo Irpaa, a edição deste ano traz como tema “Corpo, terra, água e memória: ancestralidade e saúde no Semiárido” e segue até o dia 20 de julho.

Construída a partir de uma trajetória de mais de três décadas, a Escola se consolidou como um dos principais espaços formativos do Irpaa, reunindo jovens de diferentes territórios do Semiárido brasileiro para vivenciar, estudar e partilhar experiências relacionadas à defesa da vida, a conservação da Caatinga, o direito aos territórios tradicionais, a água como direito. Também são abordados a educação contextualizada, a comunicação popular, a agroecologia, a organização social e as políticas públicas voltadas para a região.

Nesta edição, participam jovens de sete estados do Nordeste: Bahia, Piauí, Pernambuco, Alagoas, Maranhão, Paraíba e Ceará. Ao longo de 14 dias, as/os participantes irão vivenciar uma programação que combina momentos de estudo, práticas coletivas, místicas, atividades culturais, oficinas, visitas de campo e tarefas compartilhadas no cotidiano do Centro de Formação.

A metodologia da Escola tem como base a Educação Popular, inspirada nos ensinamentos de Paulo Freire, e parte da compreensão de que todas as pessoas aprendem juntas, a partir da escuta, da troca de saberes e da relação entre teoria e prática. Por isso, além dos momentos de formação, a programação inclui atividades matinais em viveiros, quintais produtivos, aprisco, composto orgânico, beneficiamento de frutas, canteiros de hortaliças, cisternas e outras tecnologias apropriadas ao Semiárido. A organização das atividades também envolve as/os jovens em tarefas comuns, como limpeza dos espaços, cuidado coletivo, preparação das místicas e registros das atividades.

Para a coordenadora geral do Irpaa, Nívea Rocha, a juventude ocupa um lugar estratégico na missão institucional do Irpaa, especialmente na continuidade da defesa da Convivência com o Semiárido e na construção de processos de transformação social nos territórios. “A juventude é a missão do Irpaa. A gente faz esse trabalho de apoio e de defesa da Convivência com o Semiárido, que hoje já é conhecida nos quatro cantos deste país. A juventude do Semiárido que está aqui cumpre esse papel de multiplicadora e é um pilar importante nessa transformação social, não só na partilha do conhecimento, mas também na mobilização, no acesso a direitos, nos processos democráticos e na sucessão rural”, afirmou.

Nívea lembrou ainda que muitos jovens que passaram pela Escola hoje atuam em diferentes espaços, públicos e privados, contribuindo com a defesa dos direitos das populações do campo e do Semiárido. “A gente tem vários jovens que passaram por essa Escola e que hoje estão em vários lugares, sejam públicos ou privados, mas fazendo diferença na luta pelo direito e pela defesa das populações do campo e do Semiárido. Esse momento aqui é um espaço inspirador e animador para a gente continuar acreditando no Semiárido. A gente tem jovens do presente e do futuro acreditando nesse projeto, nessa perspectiva de vida”, disse.

A programação da 32ª edição aborda temas como realidade das juventudes, análise de conjuntura, clima e água, histórico do Semiárido, terra e território, comunidades tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto, mudanças climáticas, política de água, tecnologias de captação e armazenamento da água da chuva, vida e manejo do solo, saneamento rural, Recaatingamento, educação contextualizada, comunicação para a Convivência com o Semiárido, educomunicação, juventude e saúde mental, segurança alimentar, gênero, diversidade e antirracismo.

As/os jovens também participarão de oficinas de fotografia e vídeo, teatro do oprimido, xilogravura, pintura em ecobag e atividades culturais. A programação prevê ainda visitas ao Parque Estadual de Canudos, ao Museu da UNEB, à Barragem de Sobradinho, à Escola Família Agrícola de Sobradinho e ao Armazém da Caatinga, espaços que contribuem para relacionar os debates formativos com experiências concretas de memória, território, produção, organização social e Convivência com o Semiárido.

Para Clerison Belém, coordenador institucional do Irpaa, a presença das juventudes na Escola carrega uma responsabilidade coletiva, pois expressa o compromisso de muitas instituições parceiras com a formação de sujeitos políticos capazes de atuar em seus territórios e contribuir com a defesa do Semiárido. “Para vocês chegarem até aqui, houve um investimento. Realizar um evento como esse também é um investimento da instituição. Mas é importante que, ao final desse ciclo, vocês voltem para seus territórios e possam repassar as informações, replicar os aprendizados e fortalecer as lutas nos lugares de onde vieram”, destacou.

Para ele, a Escola é uma oportunidade de fortalecer novas lideranças comprometidas com a construção do bem-viver. “As organizações precisam de renovação, as instituições e as comunidades precisam de lideranças. Eu tenho certeza de que cada um e cada uma de vocês aqui já é uma liderança, está se formando como liderança, como estudante ou como alguém que quer uma sociedade diferente. Então, resumindo, nós somos pessoas que queremos uma sociedade diferente. Tenham uma boa formação e se sintam à vontade para construir”, concluiu.

Criada em 1992, a formação, que começou como ‘Escola de Lavradores’, tinha inicialmente como público representantes de organizações sociais, movimentos populares, sindicatos e associações, com o objetivo de aprofundar o debate sobre o conceito e a prática da Convivência com o Semiárido, especialmente a partir das discussões sobre produção apropriada, acesso à água e políticas públicas. A partir de 2015, a proposta passou a ter como público principal as juventudes, reconhecendo o papel estratégico dos jovens na continuidade das lutas, na renovação das práticas comunitárias e na construção de novas formas de permanência digna no Semiárido.

Para José Moacir, presidente do Irpaa, a Escola reafirma o compromisso da instituição com a formação de novas gerações para a defesa da Convivência com o Semiárido. Ele lembrou que, há quase 40 anos, tiveram início as primeiras experiências que contribuíram para o rompimento com o paradigma do combate à seca e para a construção de outra perspectiva sobre a região.

“A gente sai do combate à seca e cria uma política de Convivência com o Semiárido. Hoje, na internet e nas redes sociais, talvez não se falasse em multiplicador, mas em influenciador ou influenciadora da Convivência com o Semiárido. Então, essa é a nossa missão enquanto Irpaa: conversar com vocês durante duas semanas para que, depois, cada pessoa volte para sua casa, seu município, seu movimento, sua entidade, e lá divulgue ainda mais e construa localmente essa proposta de Convivência com o Semiárido”, destacou.

Moacir também chamou atenção para a diversidade de experiências presentes na Escola e para a importância da troca de saberes como parte central da metodologia formativa. “A gente vai ver que não é um Semiárido apenas, são vários Semiáridos. Tem gente aqui que não é do Semiárido, mas contribui com a causa do Semiárido. Então, a gente quer fazer essa construção em duas vias: uma é a equipe, com nossa experiência, nossas teorias e nossas práticas, dialogando com vocês; a outra é com vocês, com aquilo que cada pessoa traz. A ideia é que a gente tenha muito tempo de diálogo, troca de experiências e troca de saberes. Cada um e cada uma traz um saber, acessa outros saberes e não volta para casa apenas com um saber novo, mas com a possibilidade de construir um terceiro conhecimento, um terceiro saber. Esse é o objetivo da Escola”, afirmou.

Ao longo dos anos, a Escola de Formação de Juventudes tem contribuído para desconstruir olhares equivocados e estigmatizados sobre a região semiárida, afirmando o Semiárido como lugar de vida, produção, cultura, memória, resistência e possibilidades. A cada edição, a experiência formativa fortalece redes, aproxima territórios e incentiva que jovens retornem às suas comunidades com novos conhecimentos e maior compromisso com a defesa da Convivência com o Semiárido.

Esta edição conta com o apoio do Projeto Baraúnas dos Sertões, Agenda 2030 no Semiárido e outros.

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Texto e fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa

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