Seminário em Juazeiro fortalece debate sobre desertificação e atualização do plano estadual da Bahia

No Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, celebrado em 17 de junho, Juazeiro sediou um seminário voltado ao debate sobre os impactos da degradação das terras e as estratégias de enfrentamento ao avanço da desertificação na Bahia. A atividade aconteceu no Espaço Plural da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e reuniu mais de 100 participantes, entre representantes de instituições públicas, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, universidades, estudantes, agricultores/as familiares e povos e comunidades tradicionais.

O seminário foi promovido pela Secretaria do Meio Ambiente da Bahia (Sema), em parceria com a Univasf, o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), a Agência Regional de Mobilização Social pela Convivência com o Semiárido (Agendha) e a Escola Família Agrícola do Sertão (Efase). A programação integrou o processo de atualização do Plano de Ação Estadual de Combate à Desertificação da Bahia (PAE-BA), instrumento que orienta políticas, diretrizes e ações voltadas à prevenção, mitigação e recuperação de áreas suscetíveis à desertificação no estado.

Na Bahia, mais de 80% do território está inserido em áreas suscetíveis à desertificação, realidade que exige políticas públicas construídas a partir da escuta dos territórios e da valorização das experiências já desenvolvidas pelas comunidades. Durante o seminário, foram debatidos os efeitos das mudanças climáticas, a irregularidade das chuvas, o aumento das temperaturas, a perda da cobertura vegetal, a pressão sobre os bens naturais e os impactos diretos sobre a vida das populações do Semiárido.

Para o Irpaa, o enfrentamento à desertificação passa pelo reconhecimento das práticas históricas de convivência com o Semiárido, especialmente aquelas construídas por agricultores/as familiares, povos e comunidades tradicionais e organizações que atuam nos territórios. Essas experiências apontam caminhos para a recuperação da Caatinga, o manejo sustentável dos bens naturais, a segurança alimentar e a permanência digna das famílias no campo.

Luís Almeida, técnico do Irpaa que atua no Projeto Recaatingamento, integrou a programação do seminário e coordenou um dos eixos de debate durante o Carrossel de Experiências. Segundo ele, a atividade possibilitou reunir diferentes sujeitos que já experimentam, na prática, formas concretas de enfrentar a degradação das terras.

“O seminário reúne organizações da sociedade civil, pesquisadores, professores, agricultores e agricultoras familiares, com destaque para os povos e comunidades tradicionais, que trazem suas experiências históricas para o debate sobre o combate à desertificação. Essas vivências ajudam a construir estratégias mais próximas da realidade dos territórios”, destacou.

Durante a manhã, a programação contou com debates sobre o panorama da desertificação na Bahia, reunindo estudos, dados e análises sobre a degradação das terras, com atenção especial ao bioma Caatinga. Entre as informações apresentadas, foi destacado que cerca de 9 milhões de hectares no estado apresentam níveis de degradação que variam de moderado a muito alto, com maior concentração em áreas do território de identidade do Velho Chico, incluindo regiões como Irecê, Xique-Xique e Barra.

Os debates também chamaram atenção para a importância dos territórios tradicionais na conservação da Caatinga. Estudos apresentados durante o seminário indicam que áreas ocupadas por povos e comunidades tradicionais tendem a registrar menores níveis de degradação, o que reforça a necessidade de proteger esses territórios e reconhecer seus modos de vida como parte das soluções para o enfrentamento à desertificação.

No período da tarde, o Carrossel de Experiências possibilitou a circulação dos/as participantes por salas temáticas organizadas a partir dos eixos estruturantes do PAE-BA. As discussões abordaram temas como gestão sustentável das terras, adaptação às mudanças climáticas, pesquisa e inovação, melhoria das condições de vida das populações afetadas e fortalecimento da governança institucional.

Para Luís Almeida, esse momento foi fundamental para aproximar a atualização do plano estadual das experiências concretas já desenvolvidas nos territórios. Ele ressaltou que as práticas de Convivência com o Semiárido, articuladas por organizações da sociedade civil e pela Rede ASA junto às famílias agricultoras, oferecem referências importantes para a construção de políticas mais efetivas.

“As experiências apresentadas no Carrossel ajudam a dar base para a atualização do plano estadual. A partir delas, é possível priorizar estratégias e refletir coletivamente sobre caminhos que façam o plano sair do papel e chegar à prática, contribuindo de verdade para os territórios que enfrentam o avanço da desertificação”, afirmou.

A programação também contou com feira de economia solidária, produtos da agricultura familiar e da sociobiodiversidade, apresentações culturais, momentos de mística e espaços de troca entre organizações e comunidades. A proposta foi valorizar conhecimentos científicos, saberes populares e iniciativas territoriais que demonstram a capacidade das populações do Semiárido de construir respostas ao cenário de emergência climática.

A participação do Irpaa no seminário reafirma a defesa da Convivência com o Semiárido como estratégia política, social e ambiental para enfrentar a desertificação. Essa perspectiva considera que o Semiárido não deve ser tratado apenas a partir da escassez, mas como território de vida, conhecimento, produção, cultura e organização comunitária.

No dia seguinte ao seminário, 18 de junho, as discussões tiveram continuidade com a Oficina de Atualização do Plano de Ação Estadual de Combate à Desertificação da Bahia, também realizada no Espaço Plural da Univasf. As contribuições levantadas durante o seminário e nas atividades de escuta territorial devem subsidiar a construção da nova versão do PAE-BA, fortalecendo ações de prevenção, recuperação de áreas degradadas, adaptação climática e valorização das experiências desenvolvidas pelas comunidades baianas.

Confira mais detalhes sobre o evento através da transmissão realizada ao vivo:

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Texto e fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa

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