Foi em torno da reafirmação de que a Convivência com o Semiárido passa, obrigatoriamente, pelas mãos, pelo trabalho e pelas vozes das mulheres rurais que o Encontro Intermunicipal de Mulheres Rurais, do Projeto Ater Biomas, se tornou um ambiente de resistência e ocupação de espaços. Reunindo cerca de 40 agricultoras familiares, além da equipe técnica de ATER e convidadas dos municípios de Casa Nova, Sobradinho e Sento Sé, a Escola Família Agrícola de Sobradinho (EFAS) sediou o seminário temático entre os dias 18 e 20 de fevereiro.
O evento promoveu três dias de formação, partilha de experiências e fortalecimento da organização social feminina, com foco em políticas públicas, saúde da mulher, agroecologia e geração de renda.

O primeiro dia foi de pé no chão e consciência política. O debate central não foi apenas sobre as políticas públicas, mas sobre a presença real das mulheres rurais nos espaços de decisão. As participantes mergulharam em reflexões sobre o acesso a direitos e a importância da organização social para fortalecer o protagonismo feminino nos territórios. Em grupos, as agricultoras mapearam as políticas públicas que já alcançam suas realidades e os desafios que ainda precisam ser superados.
Para Samires, agricultora e pescadora do município de Sento Sé, o Seminário acendeu a chama da representatividade. Integrante da Rede Mulher e da Feira Agroecológica, ela destacou que a união e o acolhimento entre as companheiras é o caminho para que tenham, de fato, “voz e vez”. “O que mais me chamou atenção foi sobre as mulheres fazerem mais parte dos poderes públicos, para que umas possam ajudar as outras. E que a gente consiga buscar ainda mais benefícios e leis para as mulheres, para que se sintam mais protegidas, principalmente em relação aos seus parceiros”, pontuou Samires.
Para ela, o aprendizado se transformará em ação direta na sua comunidade. “O que eu posso fazer diferente é apoiar as mulheres na política para que mais mulheres estejam lá nos representando. Não para afrontar os homens, mas para que nós consigamos nosso espaço e que possamos fazer a diferença em relação a tomar decisões, quando se fala de comunidade, de município, do nosso estado, do nosso país”, concluiu.
Este momento inicial reafirmou a premissa de que a participação ativa das mulheres é o pilar fundamental para fortalecer as comunidades rurais e ampliar as conquistas coletivas no Semiárido.
O segundo dia de encontro trouxe para o centro do círculo um debate profundo sobre a saúde mental e o enfrentamento à violência contra a mulher. Em um ambiente de acolhimento, as participantes destacaram a importância do autocuidado e da construção de redes de apoio, compreendendo que a saúde e o bem-estar são pilares indispensáveis para a resistência no campo.
A programação também avançou sobre um instrumento estratégico para a autonomia feminina: a Caderneta Agroecológica. Para além de uma simples ferramenta metodológica de registro, a caderneta permite que as agricultoras deem visibilidade ao trabalho produtivo que realizam nos quintais. Ao anotar o que é colhido para o consumo da família, o que é trocado com as vizinhas e o que é vendido, o trabalho “invisível” revela sua real importância econômica e social.
Para Maria Isabel (Belinha), da comunidade tradicional Fundo de Pasto Barra da Cacimbinha, em Casa Nova, o momento foi de muito aprendizado sobre saúde mental e cuidado com as mulheres. Ela ressaltou que as mulheres devem estar sempre em busca dos seus direitos pela saúde e protegendo umas às outras. “Foi um momento muito especial de conhecimento e maturidade para a gente saber procurar os nossos direitos. Que a gente leve essas informações para outras mulheres das nossas comunidades e, se a gente ver que está precisando de ajuda, a gente ajudar”, destacou Belinha. A atividade reforçou que o cuidado com a vida e o reconhecimento do trabalho feminino são os alicerces para o desenvolvimento sustentável e para a soberania das famílias agricultoras.
O último dia do seminário foi marcado pelo cheiro das ervas e pelo toque na terra, transformando saberes ancestrais em ferramentas de autonomia. Oficinas práticas de medicina natural, artesanato com biojóias e o trabalho com derivados da mandioca mostraram que a geração de renda e a preservação da cultura caminham juntas. Mais do que aprender técnicas, as mulheres valorizaram os saberes tradicionais, a autonomia produtiva e as possibilidades de geração de renda.

Para a equipe técnica do IRPAA, o encontro também foi de aprendizado. Tayná Ferreira, técnica do projeto ATER Bioma, ressaltou que a saúde mental e o bem-estar das mulheres não podem ser vistos como algo separado do trabalho produtivo e da assessoria técnica. Para ela, uma ATER eficiente precisa ter sensibilidade para entender que, muitas vezes, as dificuldades na produção estão ligadas às questões emocionais e sociais. “Esse aprendizado contribui para tentar desenvolver uma ATER mais humanizada, que não trabalha apenas a produção e a renda, mas que também enxerga a qualidade de vida, a dignidade e o bem-estar das mulheres. Ao cuidar da saúde mental das agricultoras, a gente fortalece também as suas famílias, as suas comunidades e o seu processo produtivo”, afirmou Tayná.
Ao final do Seminário, o grupo realizou um planejamento coletivo, definindo metas e encaminhamentos para fortalecer a organização feminina em seus municípios.
O Encontro Intermunicipal reafirma o compromisso do IRPAA e da equipe de ATER com o fortalecimento da organização das mulheres rurais, a promoção da Agroecologia e a democratização do acesso às políticas públicas. Mais que um momento formativo, o encontro consolidou um espaço de escuta e construção coletiva, encerrando-se com a reafirmação do papel das mulheres como protagonistas da Agroecologia e da Convivência com o Semiárido, com a certeza de que a vida no campo só frutifica onde a existência das mulheres é valorizada.
O projeto Ater Biomas é financiado pelo Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) e da Superintendência Baiana de Assistência Técnica e Extensa Rural (Bahiater).
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Texto: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa
Fotos: Eixo Produção Apropriada





