Auditório lotado de estudantes, apresentação de músicas do CD Belo Chico e troca de saberes sobre discussões importantes relacionadas às “Mudanças climáticas e o Rio São Francisco”. Além disso, momentos para refletir e provocar o público presente em relação a como as profissões podem contribuir com assuntos ambientais e de sustentabilidade. Esses foram os destaques do XXV Encontro Semestral de Carreiras da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). O evento aconteceu na noite desta quarta-feira (01), no auditório da biblioteca do campus sede da Universidade, em Petrolina-PE.
Com um tema especial a cada edição, o evento busca envolver egressos/a, promovendo a integração de estudantes de ensino médio, técnico, graduação e pós-graduação; além de ter o objetivo de conectar os conhecimentos da universidade com a sociedade. O assunto da vez foi escolhido devido à importância e urgência das discussões, tendo em vista a proximidade com o dia em que se celebra o dia da “descoberta” do rio, vinculada à data do padroeiro São Francisco de Assis, festejado por cristãos católicos em 4 de outubro.
A programação contou com apresentação de atividades relacionadas ao Colegiado de Administração e uma mesa redonda para discutir o tema do Encontro. O momento reuniu representantes das instituições e organizações envolvidas nesta edição. Entre eles/as estava o filósofo, cantor e escritor Roberto Malvezzi (Gogó), que também contribui com as ações da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Gogó fez um apanhado do histórico de exploração e ocupação do território, com registros, por exemplo, de chacina de indígenas, com escravização dos filhos e mulheres dos homens assassinados. “É uma história cruel e pesada, de dominação e controle das populações”, enfatizou.

O educador popular e agente da CPT frisou ainda a importância dos territórios e comunidades indígenas, quilombolas, de fundo de pasto e pesqueiras. Inclusive, conclamou o público presente a apoiar essas comunidades na luta pelos direitos e existência:
“Agora os povos estão reagindo, estão buscando o seu lugar, seus direitos e nós do movimento popular, a nossa tarefa é apoiar essas comunidades na reconquista dos seus territórios, dos seus direitos; e do direito, inclusive, da civilidade moderna (por exemplo, acesso à educação universitária)”.
Sob olhar atento do público presente, Gogó destacou alguns dados, por exemplo sobre desmatamento e excesso de retirada de águas para o agronegócio, e pontuou que é preciso revitalizar o Rio São Francisco com ações efetivas, para garantir que o rio tenha matas ciliares, fauna, flora e comunidades. Ele concluiu com reflexões sobre a falta de ações e engajamento de prefeitos, governos estaduais, deputados e senadores dos estados que recebem água do Velho Chico:
“Não tem nenhum ente do Estado brasileiro que esteja pensando em revitalizar esse rio a médio e longo prazo (…) Para nós, realmente, aqui (na mesa) eu acho que tem uma certa unificação no entendimento das coisas: o problema fundamental, por enquanto, para nós não são as mudanças climáticas globais que estão impactando o São Francisco; é o histórico de ocupação do São Francisco. Isso precisaria ser revisto, ser redimensionado e alguém precisaria ter coragem (de se comprometer com a revitalização)”.

Entre outros assuntos, a educadora popular pelo Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), Rizoneide Gomes, ressaltou iniciativas de mobilização dos/as pescadores/as em defesa do rio; as desigualdades sociais; racismo ambiental; o assoreamento, que tem comprometido a vida do Velho Chico; impactos dos grandes empreendimentos; contaminação por metais pesados na água, causado por esgotos e atividades ao longo da bacia, principalmente pelo uso de agrotóxicos e mineração. A educadora afirmou que é preciso ações conjuntas para, de fato, solucionar esses problemas.
“Nesse sentido, a gente percebe que há a necessidade de várias ações que devem ser feitas em defesa das comunidades, dos rios e da biodiversidade. Então, para isso, precisa ser de forma organizada e que tenha investimento e planejamento, garantindo a participação das comunidades ribeirinhas e de diversos setores envolvidos, como a universidade e outros que estão aí para ajudar a pensar e organizar ações”.
Também durante as discussões da mesa, o coordenador do Eixo Clima e Água, do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), André Rocha, complementou reforçando as diversas degradações que o rio vem sofrendo e destacou outros temas como: a expansão territorial do Semiárido; a importância de defender a Caatinga em pé; defesa do saneamento básico, principalmente para a zona rural; energia solar descentralizada, sem precisar derrubar a Caatinga; e a necessidade de reforma agrária, de garantir terra em tamanho apropriado para as famílias agricultoras.

André concluiu também enfatizando que, mais do que a influência global das mudanças climáticas, é preciso olhar para o que tem, de fato, provocado a degradação do rio.
“Não precisa que o clima mude para comprometer a vida, os sistemas de produção (…) O rio São Francisco sofre muito mais com a degradação direta do que aquela degradação em função das alterações, oscilações ou desses ciclos aí de precipitação. Que bom que a gente tem condições de agir no território, sabendo que morte de rios, desertificação ou redução de volume das infiltrações se deve à degradação direta. Então, a gente pode cobrar de quem tá aqui e diluir as responsabilidades, ao invés de jogar tudo para a escala global”.
Para o colaborador do Irpaa, participar do evento foi uma boa oportunidade de troca de saberes e de incidência no espaço acadêmico, para “compreender um pouco mais sobre mudança climática e aprender o que é que se sobrepõe, ou o que é que até tá pesando mais nesses desastres que gente está sofrendo”.
O professor do Doutorado em Agroecologia e Desenvolvimento Territorial, na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Lucivânio Jatobá, também contribui com as reflexões da mesa.
A organização do encontro promoveu ainda uma ação solidária, com arrecadação de alimentos não perecíveis para a Escola Família Agrícola da Caatinga (EFAC), de Casa Nova-BA. O coordenador da EFAC, Felipe Alves, esteve presente e, durante a fala, destacou a importância do apoio à Escola. Inclusive, ele enfatizou que a EFAC também é uma forma de resistir ao fechamento das escolas do campo na região.
O evento foi realizado pelo Laboratório de Carreiras e Desenvolvimento de Competências, vinculado ao Colegiado de Administração da Univasf. Esta edição teve o Irpaa como instituição parceira e contou com o apoio da CPT, regional Bahia; CPP e da Uneb.
Texto e fotos: Eixo Educação e Comunicação do Irpaa











