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A experiência de comunidades tradicionais e o relacionamento intrínseco com a Caatinga

A experiência de comunidades tradicionais e o relacionamento intrínseco com a Caatinga

Os sertanejos desenvolveram técnicas de convivência com o semiárido ao longo dos anos para se adaptar a falta de chuvas, característica marcante do bioma

Os espinhos, a seca e falta d`água que racha o solo são algumas características de um estereótipo hostil criado em torno da Caatinga. Não à toa seu nome tem o significado de mata branca em tupi: ka'a [mata] + tinga [branca], em alusão ao período de seca em que a vegetação perde as folhas, ficando esbranquiçada e dando destaque à cobertura espinhosa da plantas. O bioma exclusivamente brasileiro, pelo contrário, reúne uma rica e única biodiversidade, o que significa que boa parte das espécies encontradas no bioma, só existem lá.

Apesar dos poucos estudos acadêmicos em relação ao bioma, estima-se que numa área de 850 mil km² de Caatinga há cerca de 932 espécies de plantas, das quais 380 são endêmicas, ou seja, só se desenvolvem na região; 591 espécies de pássaros; 241 espécies de peixes; e mais de 400 espécies de animais entre répteis, anfíbios e mamíferos. O bioma ocupa mais de 10% das terras do país e grande parte do Nordeste na região do Semiárido.

Isto mostra a grande dualidade existente entre o que a Caatinga realmente é e o estigma que se criou historicamente. “O semiárido não é pobre, ele é empobrecido. Foi criada uma visão a partir da estruturada sócio, política, econômica que vem desde a colonização, inclusive com a associação de que a seca era considerada um castigo de Deus”, declarou o representante do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), Luís Piritiba, lembrando que a seca deixou de ser vinculada a questões religiosas a partir dos anos de 1990.

Ele defende que as pessoas devem entender que existem diversas Caatingas dentro do bioma, que se destingem uma das outas pela quantidade de chuva, relevo, tipos de solo e, principalmente, pela relação do homem com a natureza. A irregularidade da chuva, no entanto, é uma característica comum, o que faz com que a centralidade da água no semiárido ganhe uma dimensão ainda maior.

Seus povos, popularmente conhecidos como sertanejos, desenvolveram, ao longo dos anos, técnicas de convivência com o semiárido. A partir do manejo tradicional da Caatinga destacou-se o entendimento do uso sustentável da biodiversidade de forma a armazenar água, além de criar um relacionamento intrínseco com fauna e flora que ajuda no incremento alimentar, sobretudo nos períodos mais secos do ano.

O manejo tradicional e o desenvolvimento sustentável

Contrariando o modelo do sistema produtivo baseado na concentração de terras com divisão bem delimitada dos espaços produtivos (principalmente voltados à monocultura), no semiárido o tradicional mesmo é o uso comunitário dos recursos. O sistema é conhecido como Fundo de Pasto e nele não há cercas entre as propriedades e os animais são criado livremente, o que facilita o acesso à água e comida, sem a necessidade da derrubada das espécies nativas para a criação de pastagens.

Um estudo realizado pela Embrapa Semiárido, com apoio do Projeto Bem Diverso, em 2018, na comunidade tradicional Fundo de Pasto Ouricuri, em Uauá (BA), mostra que as 55 famílias que ocupam tradicionalmente há 150 anos a região mantêm mais de 80% de seu território coberto pela Caatinga. Os outros 20% de área aberta são utilizados para as moradias, acessos, aguadas e roçados, sendo que nestes, são mantidas uma grande diversidade de espécies, com mais 100 diferentes culturas de uso alimentar, forrageiro, medicinal e energética. O espaço estudado ainda possui uma ampla diversidade nas variedades tradicionais das culturas alimentares, como 11 variedades de mandioca/macaxeira, exemplificou a pesquisadora da Embrapa Semiárido Paola Bianchini, responsável pela pesquisa e ponto focal do Bem Diverso no Território do Sertão do São Francisco.

Já a criação animal é focada em ovinos e caprinos, com uma conserva de cerca de dez raças localmente adaptadas, chamadas de “pé duro”. Essas raças são mais resistentes e totalmente adaptadas ao manejo tradicional e à Caatinga”, complementou Bianchini. A comunidade também reconhece em seu território a presença de 52 espécies da fauna silvestre, segundo o estudo.

O extrativismo vegetal representa uma fonte de renda importante para a comunidade. O umbuzeiro é uma espécie endêmica da Caatinga, principal produto da cadeia da sociobiodiversidade do bioma. Grande parte da produção de umbu é realizada por comunidades Fundo de Pasto na Bahia. Na comunidade estudada, um extrativista coleta, em média, 50 kg de umbu em cinco horas de trabalho por dia. Ao longo da safra de umbu, que ocorre durante três meses, os extrativistas se dedicam a esta atividade durante 50 dias, coletando ao final do período 2,5 toneladas de fruto, o que gera uma renda de 2,5 salários mínimos.

Esta atividade, além da garantia da renda, também garante a preservação da espécie. Observou-se que a densidade de umbuzeiro nas áreas de Fundo de Pasto é de sete plantas/ha, somando aproximadamente 17.500 plantas, nos 2,5 mil hectares do território da comunidade. Mais recentemente, a comunidade tem desenvolvido, de forma independente, o cultivo de espécies da Caatinga como o mandacaru (Cereus jamacaru), fortalecendo suas estratégias de uso sustentável.

“Isto significa que a comunidade, além de todos os benefícios sociais e econômicos gerados, também está conservando no local, uma grande diversidade de umbuzeiros, importante para garantir variabilidade genética e a evolução da espécie”, analisa Bianchini.

A pesquisadora ainda explica que a comunidade também contribui para a regeneração da espécie como o enriquecimento da Caatinga, que consiste no plantio de mudas de umbuzeiro em faixas ou clareiras. Conhecido na região por Recaatingamento, a prática implica no plantio de espécies nativas em áreas cercadas e a fruticultura de sequeiro, uma agroflorestal, na qual as espécies chave são o umbuzeiro e o maracujá.

O Projeto Bem Diverso contribui para o desenvolvimento sustentável da Caatinga com atuação para a conscientização do seu uso sustentável e o empoderamento das comunidades locais dos Territórios da Cidadania do Sertão do São Francisco e Sobral, com apoio da Embrapa Semiárido (PE) e Caprinos e Ovinos (CE).

Além das parcerias com as associações de produtores locais Coopercuc e Central da Caatinga, o Projeto ainda promove o desenvolvimento sustentável da região com ações conjuntas de formação e capacitação com a Escola Família Agrícola do Sertão (Efase), o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), a Fundação Araripe e a Assessoria e Gestão em Estudos da Natureza, Desenvolvimento Humano e Agroecologia (Agendha).

Lara Aliano, Agência MOC
Com informações da pesquisadora Paola Bianchini, da Embrapa Semiárido

Foto: Comunicacao Irpaa e Bem Diverso


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